O tamanho das coisas
jul 2nd, 2009 by Tiago Soares
Na verdade, este texto era um comentário ao que o Rafa mandou aí embaixo. Mas ficou tão grande que resolvemos publicar como post mesmo.
Aproveitando o gancho: os estaduais são também essenciais, em minha opinião, pelo fator geográfico.
O Brasil é muito, muito, muito grande. E quando o motor de nosso campeonato é o confronto entre vinte clubes sediados em pouco mais de dez cidades, o futebol do interior transforma-se em terra arrasada.
Nunca engoli o papo dos fundamentalistas de mercado que culpam a própria natureza dos estaduais pelo enfraquecimento dos torneios. Passei boa parte da infância e da adolescência no interior, e sempre achei a segundona e a terceirona o maior barato. Eu mesmo frequentava o estádio direto, existia um entusiasmo do povo da região em participar da coisa toda.
O Paulistão era longo, ocupava quase todo o primeiro semestre, e as equipes viajavam pelo interior se batendo em estádios que, se não viviam lotados, também raramente estavam às moscas. E olha que o estado de São Paulo nem é tão pequeno assim, seu tamanho é mais ou menos o da Itália (é, o país).
Confesso que os segundos semestres eram um problema. Custa caro competir nas séries de acesso do Brasileirão – passear pela Federação levando time e comissão técnica é uma grana – e boa parte dos clubes ficavam no limbo. Mas, ainda assim, a estrutura meio que se segurava.
Com o estrangulamento do futebol do interior, esse sistema ruiu levando, junto, o que fez do Brasil o país do futebol, esquindô esquindô, telecoteco. Porque era nos times interioranos que se fermentava um tanto da cultura do jogo nacional, que se formavam vários dos jogadores bacanas.
Pode até ser que eu esteja errado, mas acredito que boa parte dessa obsessão pelo “trabalho na categoria de base” tem a ver com a derrocada dos times do interior. Com as equipes menores caindo aos pedaços, os grandes raramente conseguem pescar algo interessante. E como aquela pechincha promissora é cada vez mais rara, o jeito é fazer em casa mesmo.
Claro, o trabalho de base é essencial. Mas, quando a coisa se encerra nisso, coloca-se em risco a diversidade do jogo nacional. Porque em vez de pescar aqui e ali em, sei lá, 40 times pequenos, com diferentes propostas e tal, você passa a peneirar num único lugar, com uma única proposta. O que, hoje, é ainda mais complicado, porque o moleque da base é visto como produto e treinado com vista à venda ao exterior. Aí dá-lhe futebol força e 3-5-2 na cabeça da meninada.
Com estaduais que funcionem, essa estrutura do interior é alimentada, enriquece-se a diversidade. E isso, graças às profecias auto-realizáveis de boa parte dos colonistas, está sagrando à morte. Vítima dos pitacos de gente que, deslumbrada com o futebol-empresa-europeu, raciocina como se o Brasil fosse do tamanho da Espanha.
Pensando junto: que campeonato nacional europeu tem mais de quatro grandes potencias brigando pelo título? E quantos países europeus conseguem ser muito maiores (em tamanho mesmo) que a média dos estados brasileiros?
Pô, pra quem mora no interior, empurrar o time da cidade é o maior barato. Estimular esse tipo de competição, pensar em soluções criativas que reanimem esse cenário pode não ser fácil, mas está longe de ser impossível.
Em seu modelo atual, o Brasileirão estrangula os times médios e nanicos do interior do país, num movimento que, a médio-longo prazo, pode mostrar-se um grande tiro no pé. Tudo bem, concordo ser pura chinelagem mudar o regulamento do Nacional a cada ano. E é fato que o futebol nacional precisa se modernizar em vários aspectos, que é bom que pelo menos uma ou outra coisas sejam feitas. Mas, sei não: pelo andar da carruagem, tenho cada vez mais a impressão que estamos jogando fora a criança e a água do banho.



