Tudo que é falso marketing se desmancha no ar…
mai 14th, 2007 by Rafael Evangelista
A partir da dica de nosso leitor Gioia, quero destacar o belo texto do cineasta palmeirense Ugo Giorgetti, publicado no Estadão de domingo (para assinantes).
Analisando o impacto da desclassificação do time do Jardim Leonor, Giorgetti vai na veia ao mostrar como o que é divulgado pela imprensinha como “modernidade” da diretoria do time de lá lembra muito é a mais caricata malandragem.
As palavras de Giorgetti são perfeitas, com ironia e agudeza na medida certa. Cito o texto quase por completo:
Muricy Ramalho é a bola da vez. Finalmente o que costumava acontecer apenas em outros clubes atinge o organizado, estruturado, moderno, cosmopolita São Paulo F.C. E o que se vê é que o São Paulo é igual a qualquer outro clube brasileiro. Talvez seus dirigentes sejam um pouco mais educados, um pouco mais polidos, até mesmo mais espertos, mas na essência iguais aos outros.
A esperteza desses dirigentes pode ser observada em várias atitudes, a principal delas terem feito com que a torcida e, principalmente, parte substancial da imprensa, tomassem esse time que aí está por um grande time, um plantel excelente, “o melhor elenco do Brasil’’, segundo declarações recentes. Com a costumeira arrogante simpatia, difundiram essa impressão e pouca gente se deteve para examinar as coisas como elas realmente são, isto é, o São Paulo não é um time imbatível, muito pelo contrário. O São Paulo está até longe de ser um grande time e está na companhia da maioria dos demais clubes brasileiros, sujeito a altos e baixos, caprichos do acaso, etc, etc.
Criou-se, entre outras coisas, uma mística envolvendo a Libertadores, como se essa competição fosse uma espécie de especialidade do clube do Morumbi, como se possuísse sobre os demais clubes a chave do sucesso no torneio, como se para ganhá-lo bastaria participar apenas com sua camisa gloriosa. Esses malabarismos de puro marketing acabaram por colidir com a dura realidade. E esta nos indica, com a brutalidade com que habitualmente o faz, a clara verdade: não há mística nenhuma, não há superioridade de nome e de reputação que resista quando os times entram em campo e começa o jogo. Para ganhar é preciso jogar bola.
No entanto a imprensa, ou significativa parte dela, comprou o mito do grande time do São Paulo, como antes tinha comprado o mito do grande time do Internacional de Porto Alegre, quando do triunfo no Japão. Agora o Internacional também teve de se defrontar com a vida real e as coisas ficaram um pouco diferentes.
Nesse momento se persiste no mesmo engano. Enquanto a diretoria do São Paulo espertamente, e seguindo a fórmula de todos os outros clubes, joga a culpa sobre Muricy Ramalho, parte da imprensa quase colabora com isso, não conseguindo encontrar explicação adequada para as últimas derrotas.
Para complementar, convidaria o leitor a pensar sobre o impacto dessa imagem da diretoria do Jardim Leonor, projetada para e pela imprensinha, sobre os dirigentes de outros clubes. Se alguém diz que eles são o clube “moderno, organizado, estuturado, cosmopolita” implicitamente diz também que os outros são atrasados, bagunçados, sem estrutura e locais. Cada elogio a eles, tidos como monopolistas da boa administração, é uma crítica aos outros.
E informações (para assinantes) como esta, publicada pela Folha de S. Paulo de hoje, vão para baixo do tapete no funcionamento cerebral dos comentaristas.
O São Paulo ameaça não participar da Timemania, a menos que o Senado faça nova alteração. Discorda da obrigação de confessar débitos que contesta na Justiça. Os são-paulinos usam uma dívida fiscal de R$ 30 milhões como exemplo. Em todas as instâncias até agora, o clube conseguiu a redução. Mas o governo recorre. Se o resultado não sair até a loteria ser regulamentada, o São Paulo precisa assumir o débito. Advogados, porém, vislumbram maneiras de contestar o pagamento, mesmo se a nova lei não for mudada.
Como fica a imagem de administração moderna ao admitirem uma dívida desse tamanho?
Justiça seja feita, rigor administrativo, contas em dia e planejamento são bons para qualquer clube. Mas não são exclusividade ou monopólio do Jardim Leonor. Nem devem ser falsamente usados como peças de marketing.
Amigos palmeirenses,
Esse assunto deveria ser mais debatido.
O texto colocado pelo Rafael é muito importante e oportuno. Essa coluna publicada no Estadão explica muita coisa que observamos no futebol.
A imagem plantada sobre os clubes pode definir resultados, comportamentos, posturas de jogadores e de times. Ela pode impor o otimismo par uns e pessimismo para outros, acabando por influir nos destinos desses clubes.
Muito bom o texto.
Gerou até uma ótima discussão em uma comunidade palmeirense no orkut.
ótima visão