O custo da informação privilegiada
mai 15th, 2007 by Rafael Evangelista
A relação de alguns jornalistas com certos clubes e seus grupos de poder beira o escândalo. Os espaços da mídia são usados para mandar recados, incitar a torcida contra treinadores, pressionar dirigentes, criar intrigas. Em troca, o jornalista ganha acesso privilegiado a informações. E isso se tornou tão corriqueiro que ninguém estranha mais.
No jornalismo, a relação com a fonte é, sempre, complicada. Quem alegremente repassa ao repórter alguma informação de bastidores em geral é porque ganha com sua divulgação. Se alguém dá acesso privilegiado a vestiários, concentrações e gabinete de diretores, um dia pode cobrar o favor.
Nesse equilíbrio delicado, Vitor Birner parece estar passando dos limites. Vejamos um recente post em seu blog.
Daí a Muricy o que é de Muricy.
Li e ouvi quase tudo sobre a participação de Juvenal Juvêncio na escalação do São Paulo na vitória contra o Goiás. Tentarei ser claro, pois os problemas de comunicação são mais do que normais. O presidente do clube, o mandatário da instituição, no momento de crise, foi ao CCT e conversou com treinador Muricy Ramalho. Claro que nomes de atletas foram discutidos, mas nenhum foi escalado diretamente por ele. Desculpe pela rudez, mas para ser claro, ninguém foi enfiado goela abaixo na garganta do técnico. Aconteceram, na discussão, momentos em que Muricy discordou do presidente. Em suma, houve interferência de Juvenal Juvêncio, o que acho normal. Ele é responsável pelos sucessos e fracassos da instituição em todas as áreas e não apenas no futebol. Não poderia se omitir. Claro que o presidente não gostava do que via em campo e foi tomar as devidas providências, entretanto quem arrumou e treinou o time foi Muricy Ramalho. Não acho que o time tenha apresentado, sob seu comando, nem 50% do que poderia e acredito que a interferência do presidente foi vital para a melhora, mas daí para afirmar que Juvenal Juvêncio escalou do goleiro ao ponta, como se dizia no passado, que foi o único responsável pelas modificações, é um exagero. Muricy é honesto e trabalhador. Sou um crítico do trabalho dele no São Paulo, mas não é pessoal e gostaria que não houvesse injustiças.
O que é isso? Assessoria de imprensa do Jardim Leonor? O quanto da opinião de Birner é contaminada pelas relações pessoais que tem com a diretoria do clube? Será que se fosse o Della Monica a vestir o agasalho do técnico e “sugerir” modificações na equipe tudo seria tão normal?
Birner é daqueles que têm inflado as qualidades da equipe comandada por Juvêncio. Inflado tanto que até os jogadores reconhecem que isso os deixa de salto alto. Declaração de Jorge Wagner à Folha:
“Acho que acabamos acreditando demais nos comentários que davam nosso elenco como um dos melhores do país, isso interferiu”, disse o meia.
Quando esse salto alto só atrapalha os passos do time de Juvêncio, tudo bem, é problema deles. Mas a questão é que, primeiro, futebol também é negócio, envolve dinheiro (muito!) e a qualidade técnica dos jogadores é dada por um mercado nada objetivo, altamente influenciável pelas opiniões (embora seja leviano apontar dedos a quem quer que seja, essa situação pode alimentar dúvidas sobre os motivos dos jornalistas e suas informações). E, segundo, devemos lembrar que ressaltar a qualidade de um significa diminuir as do outro, ou seja, quantos talentos não estão deixando de ser reconhecidos dada essa insistência em jogar luzes no Jardim Leonor?