Remember Rivaldo
mai 21st, 2009 by Rafael Evangelista
Segunda, no Bem, Amigos, Luxemburgo deu uma reclamada lá na pegação de pé da torcida do Palmeiras. Acho que ele tem razão em parte, embora também ache que essa reclamação é cortina de fumaça para deficiências dele, Luxemburgo. Mas disso falo mais tarde.
Antes, quero fazer um paralelo entre Rivaldo e Marquinhos. Não, não estou dizendo que o último é craque como primeiro, o que quero é mostrar como a história do pernambucano pode nos ensinar algo sobre o baiano (e sobre nós, e sobre os outros).
Que me perdoem os edmundistas, evaristas, djalmistas, alexistas e os valdivistas, mas Rivaldo foi o maior craque que já vi jogar com a camisa do Palmeiras. Tudo bem, a história dele no Palmeiras não é tão longa, muito menos tão dramática quanto a do Evair, mas estamos falando de alguém que foi eleito melhor do mundo e que, não só para mim como para o Ronalducho, foi o grande craque da Copa de 2002.
É verdade que Rivaldo evoluiu com o tempo. Mas o talento já estava lá e, creio eu, isso que percebemos como evolução talvez seja mais é fruto de uma boa adaptação ao time. No Mogi-Mirim, Rivaldo era peça importantíssima do Carrossel Caipira, embora a grande estrela fosse Válber. Naquele time ainda estavam Leto, formando o trio de ataque, e os imortais (porque ainda ativos) Dutra e Fernando. Por um azar do destino eu estava num churrasco, a 500 metros do estádio, quando Rivaldo marcou “o gol que Pelé não fez”, aquele do meio do campo.
Bem, Rivaldo, Valber e Leto foram importados pelo corinthians. E não deram certo por lá, Rivaldo foi intensamente criticado pela torcida. Hoje isso até parece meio absurdo, como alguém que em poucos anos estaria no auge de sua carreira pode passar assim despercebido por todos?
Mas assim foi, e Rivaldo aportou no Palmeiras em 1994. Na nossa casa, ele nunca foi o grande ídolo, ofuscado por Edmundo e Evair. Mas com seu jeito tímido, calado e modesto lá sentiu-se bem. Principalmente, caiu como uma luva naquele time, assim como no impressionante Palmeiras de 1996.
E aí entra a minha comparação, que vai pelo lado da personalidade e pelo time em que o jogador se insere. Assim como vi rivaldo no Mogi de 1992 e 1993, vi Marquinhos no Vitória de 2008. Acho que o time do Mogi era melhor, assim como, comparativamente, a performance de Rivaldo. Mas ambos estavam perfeitamente encaixados em suas equipes. Quando saíram desse encaixe a qualidade caiu.
E, de alguma forma, a personalidade de Marquinhos parece ser oposta da de Rivaldo tanto quanto o corinthians é o oposto do Palmeiras. Marquinhos chegou de chuteira vermelha, brinco de diamante e cabelo espetado. Não acho que ele tenha feito nada de errado e eu não tenho nada contra, mas a torcida do Palmeiras, principalmente a amendoim, é conservadora e parece ter. Ou, no mínimo, vai esperar de um jogador vestido assim um desempenho tão esfuziante quanto a aparência. Algo me diz que a torcida do corinthians aceitaria isso numa boa, talvez até valorizasse mais o jogador.
E, com algumas exceções, as duas torcidas parecem ser assim, a do Palmeiras espera mais de quem aparece mais, a do corinthians até perdoa os mais mascarados. Talvez por isso que Ademir da Guia - tímido e reservado como Rivaldo – seja uma das únicas unanimidades no Palestra. A deles… sei lá, Marcelinho Carioca, Ronaldo goleiro…
Bem, mas aí entra o outro ponto, o técnico. Marquinhos chegou tarde nesse time e, diferente do que aconteceu com Rivaldo, Luxemburgo até agora não conseguiu acertá-lo na equipe. Está inventando até demais, tentando usá-lo como lateral, e Marquinhos tem obedecido o pofessô. Quando o time fracassa, como no último domingo, a coisa cai nas costas dele. Ninguém se lembra, por exemplo, que o recém guindado a herói, Diego Souza, anda numa fase absurdamente fominha e não passou a bola do jogo a Keirrison ou Xavier, preferindo tentar o chute mesmo estando marcado.
O fato é que o time sofre porque não está conseguindo equilibrar defesa e ataque. No começo do ano estava tudo ótimo. Em competições mais difíceis a coisa azedou. E Luxa começou a se acovardar, está sacrificando Keirrison que hoje joga sozinho no ataque. Nosso problema me parece estar aí, nesse equilíbrio que precisamos encontrar entre atacar e defender, não em Marquinhos ou Capixaba. Aliás, em 1993 e 1994 tínhamos o Cláudio na lateral direita, alguém se lembra? Nem todas as peças que teremos serão espetaculares mas é de todas elas que se faz um time. Desde que o técnico FAÇA esse time.
Bem, mas estou fugindo do assunto. Meu medo é ver, daqui a pouco, Marquinhos brilhando em algum outro lugar por aí…
Muito boa análise.
É uma situação parecida com a do Maicossuel, que o Conrado comentou outro dia. O cara comeu a bola no Botafogo, que vai levar a comissão da Traffic enquanto nós ficamos com as mãos abanando.
Por outro lado, a quantidade de jogadores que foram mal no Palmeiras, que nossa torcida pegava no pé, e depois se deram bem em outro lugar é ínfima, desprezível.
Tem o Maicossuel, quem mais? O Leonardo Silva até que se vira atualmente no Cruzeiro.
Henrique, Valdivia, Kleber saíram a contragosto da torcida, a situação é outra, parecida com a de Vagner Love. Ilsinho foi perdido para os bambis, sequer esquentou como titular do Palmeiras.
Mas temos aí uma legião imensa de jogadores, tanto da base quanto contratados, que tiveram passagem medíocre pelo Palmeiras e continuaram medíocres mundo afora.
É uma lenda que está ligada a outra lenda: a primeira, que a torcida do Palmeiras é especialmente corneta, intolerante e mal-humorada, e a segunda que os jogadores rendem mal aqui porque não contam com a compreensão da torcida.
Estas duas lendas estão sendo oportunisticamente evocadas porque uma terceira lenda está sendo cruamente desmentida pelos fatos: a de que o Luxemburgo “extrai o máximo” dos jogadores.
Sim, extrai, desde que sejam Evair, Edmundo, Roberto Carlos, Antonio Carlos, Muler, Edilson, Rincón, Cesar Sampaio, Mazinho, Rivaldo, Djalminha, Alex, Gamarra, Robinho.
Com elencos medianos, Luxemburgo é um técnico mediano que consegue resultados medianos, mas gasta um tempo acima da média para arrumar desculpas para os fracassos.
Sobre contratações é outro capítulo, mas o Palmeiras tem um histórico recente lamentável nesse quesito.
Comemoramos a chegada de Luxemburgo - Traffic na esperança de que isso fosse mudar, mas em certos aspectos até piorou.
Luxemburgo, por exemplo, deu o aval para a contratação de Jorge Preá, que foi recentemente devolvido ao Palmeiras por deficiência técnica.
Mesmo assim, inexplicavelmente Preá ganhou uma prorrogação de contrato até o final de 2011, formando num ataque de bocas para comer na folha salarial do Palmeiras ao lado de Max e Enilton, por exemplo.
Alguns comentarios sobre os temas abordados no texto:
1- O Luxemburgo está escalando errado e é isso que nao faz o time ter esse equilibrio defesa/ataque.
2- Marquinhos precisa de tempo, nao se adaptou ao time ainda. O Luxemburgo deveria poupa-lo para evitar essa critica.
3- O Marquinhos era atacante no vitoria e o willians era meia/volante. Aqui o luxa inventou Willians no ataque e Marquinhos no meio. O Willians esta se saindoo bem, o Marquinhos nao.
4- O Luxemburgo deveria dar mais chances para outros jogadores que ele nao da espaço como o Deyvid Saconni e o Lenny, que ele encostou novamente.
Ótima análise. Sempre lembro do Cláudio como um exemplo de que não é preciso ter onze craques na equipe para ela ser muito boa. Mas desde que o técnico faça esse time, como está muito bem escrito no texto.
O Cláudio não era craque, mas era um bom lateral. O problema é que o resto do time era nível de seleção, então ficou essa coisa de que ele era meia-boca. Mas isso está muito longe da verdade.
maledetto, nos privou do seu texto por tanto tempo…
pqp quando eu crescer quero escrever igual voce hehe
1) rivaldo faz parte da santissima trindade das duas ultimas decadas: marcos/evair/rivaldo. os outros vêm abaixo.
2) belissima sacaneada na torcida dos gambas.
3) compartilho da impressao de que devemos ter paciencia com o marquinhos, embora ele esteja se esforçando para esgota-la
4) nao entendo como o luxa acertou o time tao bem no inicio e conseguiu desmonta-lo, mesmo estando com as mesmas peças a disposicao. apesar de ter encarado adversarios mais fracos, o time do inicio do ano era estupidamente superior ao atual. diante da queda tatica do time, aquele inicio arrasador acaba parecendo que foi é sorte…
hora de cornetar é na segunda feira …..isso se o time não for bem no domingo!! por hora vamos dar força aos nossos, mesmo sendo:
marquinhos, capichabas, jumares………….e esses tantos da vida, eles defendem o palestra caraca.!
força a todos os nossos guerreiros na batalha de domingo!!!!
viva o Palestra!!!!
Conrado, eu acho que a Libertadores ajudou a promover esse desacerto no time que iniciou o ano. Quando o Luxa se viu diante do Colo-Colo pela primeira vez, percebeu que a proposta precisaria ser outra se quisesse seguir a diante na competição. Isso acabou com o time. O Palmeiras precisa de um centroavante forte, que saiba segurar a bola lá na frente, catimbar um pouco, alguém para jogar ao lado do Keirrison, mas que seja o seu avesso como jogador. Não é à toa que o Palmeiras ganhou a Libertadores de 99 com Oséas e Evair no elenco; que Palermo destaca-se ano a ano na competição etc. Luxemburgo se fiou nos esquemas ganhadores, mas não pode prescindir desse tipo de jogador para dar certo. E Marquinhos é a antítese disso. Enquanto o time estiver viciado nesse esquema preparado para a Libertadores, o cara não vai jogar. Isso é, inclusive, o que faz com que os bambis nunca comecem bem o Brasileiro. Ficam presos ao espírito sul-americano e não conseguem jogar o nacional. Depois que se libertarem literalmente das amarras (espero que com o título), quem sabe Marquinhos e o time voltam a ser ao menos um rascunho daquele que começou o ano, jogando pra frente, com velocidade, sem depender de um jogador que não temos no elenco.
Muito bom Rafael, acho que muitos de nós temos a mesma preocupação. Principalmente em desmintir esta história que o WL está reforçando de forma bem atrapalhada.
Rivaldo foi o melhor jogador que já vi em campo. Um adendo ao seu excelente texto, e sobre a qualidade de nosso atual treinador em entender seus jogadores(coisa que pode ter sido esqueci após alguns $MM): ao ser anunciado pelo Palmeiras, foi muito divulgado que Rivaldo seria o nosso camisa 10, substituindo Freddy Rincon(titular no Bi-Paulista de 94). Sentindo a timidez do craque Rivaldo, pouco antes do primeiro jogo WL entregou a 11 para ele e deixou a 10 com o já consagrado e querido Zinho.
Pelo o que foi possível avaliar do Marquinhos até agora, se ele chegar a ser útil como o Euller ou até um Basílio, já estarei feliz.
Grande Abraço e ótima vitória a todos no domingo,
FC
Primeiro: Rivaldo é gênio. E isso é uma diretriz editorial do blog.
Macedo, essa sua colocação (2) é bem interessante. Eu mesmo fico com o pé atrás quando a torcida corneta demais algum jogador, ressabiado com a possibilidade de as vaias esconderem de vez o futebol do sujeito. Fica sempre a idéia de que o cara pode acabar estourando em outro canto — embora não seja incomum que, no fim do dia, não dê em nada. Remember Porpeta.
É bem possível que boa parte dos caras chinelados sem dó pela torcida sejam, na real, bem limitados. Ainda assim, acredito que, já que o cabra tá lá defendendo o alviverde, vale o apoio incondicional. Até porque se o cara é pereba e é escalado, a culpa é do técnico.
Isso não anula, claro, a possibilidade de atletas promissores acabarem torrados no calor da cornetagem. E é aí que a porca torce o rabo.
A relação da torcida palmeirense com o Marquinhos é complicada, em minha opinião, porque tocada por pontos externos ao futebol. Essa coisa mesmo de julgar o cara pelo corte de cabelo e pela cor da chuteira coloca na mesa um conservadorismo meio nada a ver. E o Marquinhos, acredito, é um tanto mais promissor que a média dos promessas.
Deixa o cara expressar lá a metrossexualidade dele. Prefiro um jogador cheio de chinfra que esteja tranquilo para comer a bola que um penteadinho e inseguro.
Já o Luxa, ah, é papo pra outro post.
E só pra não perder a oportunidade: o OV blog segue em periodicidade de maré mansa e nas pautas que dêem nas telhas dos editores. Mas a marcação em cima da imprensinha continua, agora em hai-kais, no twitter.com/obverde. Vai lá!
http://colunas.epoca.globo.com/matamata/2009/05/22/a-lista-de-clubes-que-mais-faturam-no-brasil/
Incrível o avanço comercial do Palmeiras o ano passado: 61%.
Macedo, alguns nomes que deram certo em outros clubes (mas não que eu queira nenhum deles de volta):
Paulo Assunção, Lúcio, Léo Moura, Gláuber, Fabiano Eller, Índio, até o Neto Baiano que tá fazendo gol no Vitória, entre outros.
Passando por aqui rapidinho só pra lembrar o maior dos fritados que se deram bem em outros clubes na última década: Taddei é ídolo na Roma!
Não que eu queira ele de volta… sério mesmo, mas aí caímos nessa difícil e incompreensiva dúvida levantada no post e muito bem comentada e demonstrada pelo Macedo e T(h)iagos… Por que?
Que bom ter o OV de volta… Depois venho com mais tempo falar do Luxa… Excelentes opiniões por aqui!
Roberto Verdão, acho que não queremos esses caras de volta justamente porque ninguém gosta de ver esses jogadores vingando em outros times e não no nosso Palmeiras.
Lembrando mais alguns, tem o Leandro Amaral, que foi disputado por vários times ai recentemente. Tem o Dodô também… enfim, vários. Antipatia com relação a esses jogadores é totalmente justificada. Todo palmeirense que se preze odeia o Paulo Baier por exemplo, porque se nota o esforço que esse tipo de jogador faz pra não ser batido pelo Palmeiras jogando por outras cores, por sentirem raiva pelo próprio fracasso.
Embora se possa fazer uma lista de jogadores que foram mal no Palmeiras e melhoraram em outros clubes, não creio que é suficiente para consolidar um “trauma” ou um problema especificamente palmeirense.
Outros clubes passam pela mesma experiência, e de cabeça lembro do Ricardinho, Tcheco, Julio Baptista, Kleber (o gladiador), Fabio Aurélio, Paulo Nunes, Edmundo, o atacante do Sport que foi escorraçado pelos gambás, Coelho, Tardelli, Fabricio, e certamente os torcedores bambis, gambás e do Santos lembrarão de uma lista muito mais extensa de jogadores com passagem apagada por seus times que deram certo em outro lugar, ou vice-versa - jogadores que chegaram com prestígio e se deram mal. O Rosinei não é o coringa, “peça-chave” do elenco do Inter?
Sem contar a horrenda passagem de Nelsinho pelo Santos em 2005, depois a queda para a segundona dos gambás com o mesmo técnico, que acabou por “ressuscitar” no sport.
É normal, é do futebol. Não devemos abalar nossa auto-estima por causa disso.
Macedo, vc tocou no ponto certo. Por isso dei o exemplo do Rivaldo, que foi mal no Corinthians. Mas acho que não é porque acontece em todos - o que significa que também acontece conosco - que devemos achar que está bom assim. O que acho é que temos que entender as razões, até para não ficarmos presos só a um determinado tipo de jogador, o tímido, não-mascarado de que falei. Se mais derem certo é melhor, não é? E cabe ao técnico também entender isso e não queimar o cara.
Mas o Rosinei não é tudo isso no Inter não, não é coringa. É banco e só.
Acho que se pode dizer que o Rivaldo está para o Marquinhos na mesma proporção que o Cláudio está para o Fabinho Capixaba…..