Brasileirão, essa máquina de moer nervos e times
jul 1st, 2009 by Rafael Evangelista
Já repararam que praticamente todos os times do Brasil estão à beira de uma crise? O Internacional pode ir ao inferno hoje à noite, o Grêmio deve ir amanhã, o Botafogo está na zona do rebaixamento, o Flamengo outro dia levou de cinco, nossos amigos leonores estão aos farrapos, o Fluminense não faz muito apanhou dos torcedores, o Atlético estava com cara de rebaixado não fosse a mão mágica de Celso Hot/Sexy Roth (ave, Impedimento). A seguir, uma hipótese para isso.
Há uns vinte anos (começou com as bobagens colloridas em 1989) martelam na nossa cabeça que a competição é uma coisa boa. Era ela que ia salvar o Brasil, pois todo mundo teria que se coçar para ser melhor, e não ser engolido. Olhavam pra Darwin e diziam: “Ei, na natureza é assim, só os evoluídos sobrevivem”. E isso rolou no futebol também, acharam que se os grandes passassem a maior parte do tempo – com isso quero dizer do ano – se enfrentando se tornariam melhores. E isso de um jeito meio automático, já que “submetidos a uma grande lei natural”. A lógica torta valeu também para a escancarada abertura ao mercado da bola: íamos dialogar com os europeus e, se fôssemos bons, os superaríamos.
Pois eu acho que essa competição excessiva está nos detonando. Vejamos.
Nos anos 80 – a partir deles tinha idade pra ter noção de algo – comi o pão que o diabo amassou, em termos futebolísticos. Tinha que aguentar os amigos me enchendo dizendo que eu nunca tinha visto meu Palmeiras ser campeão. Mas, em 93, o céu se abriu, com o Paulista ganho podia respirar aliviado, levantar a cabeça: adeus, fila. E dá para lembrar do Corinthians também que, até 1990, não tinha ganho NENHUM Campeonato Brasileiro. Vou repetir, só pela pilhéria, NENHUM. Mesmo naquela época eles já se achavam, só por ter ganho Paulistas. Embora eu não saiba de cabeça o tamanho da fila dos times de outros estados, imagino que o estadual tenha funcionado da mesma maneira para outros.
Então esse é o ponto, um estadual maior e um Brasileirão não tão valorizado ajudavam a acalmar os nervos. O Brasileiro era tipo um bônus, uma Libertadores hoje em dia – você vai lá, disputa, mas ganhar uma a cada dez anos tá mais do que bom. O que segurava a onda mesmo eram os estaduais, nos quais você competia de verdade com mais dois ou três, o resto era zebra. Hoje dizem que o estadual só serve para precipitar crises naqueles que não ganham. Discordo, porque a esses títulos, hoje, não se dá a devida importância. E posso afirmar que, no passado, eles serviam mais para estancar crises, por darem mais títulos, a serem comemorados por mais clubes. Mini-tragédias, mesmo, quem propicia é o Brasileiro. Não dá para clubes tradicionais do Brasil acharem terminar um campeonato em oitavo como algo honroso. Nem dá para eles serem realistas com a torcida e dizerem, no começo do campeonato, que o objetivo é terminar entre os quatro, classificando para a Libertadores. Isso é apequenar todo mundo.
Bem, você pode dizer, e que me importa o emocional dos clubes e das torcidas? Eu quero é ver sangue e lágrimas – é você, criatura cruel, falando -, afinal isso que é divertido!
Tá certo, só que isso está estragando o espetáculo também. Esse clima de tensão constante está deixando todo mundo cauteloso demais e excessivamente pressionado. Não é à toa que o 3-5-2 virou praga. Todo time que entra em crise bota três zagueiros. E, pode reparar, no meio campo é tudo volante. Alas? Mentira, volantes! A coisa tá tão feia que um dos dois atacantes é, às vezes, um meia-atacante, o que na prática nos leva a um 3-4-2-1 ou 3-5-1-1. Não é à toa que o camisa 10 está morrendo.
E a pressão acontece também em cima dos jogadores. Nos estaduais, você disputava, sei lá, 20% de partidas difíceis, o resto era vitória meio contada. Empate não era coisa para time grande, nem fora de casa. Nesses 80% de jogos mais fáceis, você via a molecada se aprimorando, se entrosando, ficando ousada. Mais da metade dos lances bonitos saiam dessas partidas, onde se tinha mais liberdade para erra, para ser abusado. Não deu certo o drible, o chapéu? OK, ninguém vai comer o fígado de ninguém por isso, o jogo ainda assim vai ser ganho. E com isso o garoto ganhava confiança, passava a ter mais noção de seus limites e de seu talento. Experimenta errar um cruzamento hoje, ao 15′ do primeiro tempo. Pode ter certeza que vai ouvir, por trinta minutos e em mostra de fôlego invejável, os gritos de um tio barrigudo lhe dizendo como você é imprestável e como não merece a camisa que veste.
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Vamos lá, falar de Palmeiras.
Luxa
Não dêem ouvidos à imprensinha nessa falsa polêmica do “ah, mas a quebra de hierarquia foi uma falsa desculpa”. Ninguém manda um funcionário de currículo, com multa contratual, na primeira quebra de hierarquia. A que aconteceu foi só a última de várias. VL perdeu a noção, inclusive do ridículo, pois aquela resposta ao texto bem humorado do Giorgetti foi patética. Não dava mais pra ele, queimou todas as pontes. E vinha mal tecnicamente também (sobre o assunto, vejam isso aqui).
Keirrison
Eu acho o moleque foda. Não é porque ele foi tosco com o Palmeiras que vou negar isso. Mas essa babaquice de querer ir para o Barcelona é um mal que aflige uma geração, essa que cresceu jogando winning eleven. Endeusam times só pelo hype internacional. Times com os quais os brasileiros sempre jogam de igual para igual quando dos torneios mundiais. Se K9 tivesse algo na cabeça se miraria no seu exemplo de Coritiba, o Alex. Quando a carreira dele acabar ele sabe que Palmeiras, Cruzeiro e Coritiba o esperam de braços abertos, pois ele construiu uma história aqui, na sua casa.
Claro, culpe-se também o empresário malaco.
Ao K9 não desejo sorte, não. Vou torcer contra qualquer time cuja camisa ele vista. Quem sabe batendo cabeça o figura não aprende.
O novo técnico
Vamos combinar? Futebol é coisa séria, sem essa de colocar a identificação com o clube em primeiro lugar. O time precisa de alguém que o arrume, que lhe dê padrão, não de um torcedor sentado no banco. Minha ordem de preferência é Muricy e Dorival. O Abel é tosco.
Avisando a quem não viu: na página http://www.observatorioverde.net/twitter-ov/ dá para a companhar as twitadas ovezísticas
Nada como frutos de nossas conversas terminarem em textos uhauahuaha. Mereço crédito tb aí huahua
Sobre os textos concordo em gênero, número e grau… mas colocaria tb a culpa da imprensa que trata os estaduais com desdem, ou esqueceram do caso Paulistinha dos SPFW?
Força aos estaduais, copas do Brasil e Sulamericana. Chega de menosprezar esses títulos, porra!
O link ta zoado: http://esquemastaticos.blogspot.com/2009/06/nacional-uru-x-palmeiras-previa-2-jogo.html%20que%20bacana
Valeu, David!, corrigido.
O pior Rafael, é q
Desculpe.
O pior ,Rafael, é que a grande maioria dos laterais que atuam no Brasil não sabem jogar como ala. Mais marcam que apoiam com efetividade.
Assim o tão falado 3-5-2 acava virando 5-3-2. Considerando que normalmente 2 são volantes e um dos atacantes na verdade é um meia disfarçado, acaba surgindo algo parecido com 5-2-2-1.
Não sou realmente contra o 3-5-2 (vide o Paraguai na copa de 98), mas desde que seja um 3-5-2 de verdade. E dessa forma que eu me lembre só vis dois times jogar: O Paraguai e A seleção da Italia de 90.
Em tempo. La no Palestra Imortal eu sugeri o Carpegiani para técnico do verdão. Ele montou o esquema do Paraguai de 98 e vem tirando leite de pedra no mediano time do Vitória.
http://piazera.wordpress.com/2009/06/27/novos-tempos/
E sou contra o Muricy!
http://piazera.wordpress.com/2009/06/26/aqui-nao/
Abraço!
http://www.youtube.com/watch?v=ASjH7X-jAY4
Hummm… Sei não… Olha, qualquer consulta a corinthianos mais velhos revela que a sede por conquistas, a competitividade exarcebada é coisa bem mais antiga do que nossa geração. Mesmo leonores ex-juvenis e ainda sapecas experimentaram essa sensação de pressão, por conta do jejum da Seleção Brasileira. A pressão por vencer ou extinguir-se, o espírito de competição elevado à régua do mundo são fatores deletérios? Sem dúvida que são. Mas, no universo dos jogos, não há muita saída: por menos que a gente note a essência lúdica da coisa, o futebol é um jogo e, quem joga, joga para derrotar alguém - ou que vá jogar no time do outro, ora bolas. Ganhar - nesses termos materiais e objetivos que a palavra ganhou em nosso tempo - pode não ser muita coisa na vida real, mas é quase tudo num jogo que imita a vida real. Aliás, o jogo até sublima o que na vontade de vencer há de exagerado - bom ou mau - no modo como tentamos lidar com o mundo de verdade, aquele no qual vencer não é exatamente sair bem na fita. Há cosmovisões inteiras baseadas na idéia de que a vida não é mais do que um jogo e de que a única vitória é contra aquilo que chamamos de “eu mesmo” - o que só pode ser entendido desde que compreendamos que alguém tem que perder. Sim, o futebol está contaminado pela necessidade de construir qualquer coisa que não significa nada além de se estar na moda sempre, e por isso a gente vê animais falando em “ex-grandes” para se referirem a times com torcidas imensas e tradição consolidada. Mas não é pela sanha de vencer que se chegou a esse ponto. A sanha de vencer é boa. Ruim é o espírito Highlander dessa raça que colou no esporte e cujo mantra é o eterno “Só pode haver Um! Só pode haver Um!”.
André, mas não acho que a sanha de vencer seja o problema, é ela que fundamenta meu argumento. É para saciar essa sanha que os estaduais funcionavam bem, pois ela passava a ser factível a todos os grandes. Servia como descompressão, vencia-se um campeonato competitivo mas não exageradamente competitivo. E em um torneio assim, ainda bacana, era possível lapidar times e jogadores.
Grande, Thiago, “don’t believe the hype”
Piazera, concordo com o que fala sobre o 3-5-2. Com o Carpegiani não, o acho um inventor complicado, nosso time precisa de estabilidade, acho. Sobre o Muricy e o gás… olha, aceitando-se a hipótese da conspiração leonor não o vejo como cúmplice, mas como vítima. Não acho que ele fingiria, por mais que ele seja “operário padrão”. Aliás, a lealdade dele aos leonores vejo mais como submissão ao patrão do que qualquer outra coisa.
Brilhante o texto, Rafael, parabéns. Essa relação entre a tensão permanente, que cresceu no período destacado por você, está muito ligada com o tal do business, ou seja, mais grana no futebol, mais pressão. Os jogadores brasileiros ficaram mais “confiáveis” lá fora (lembram dos semi-fracassos de Zico e Sócrates na Itália?) e os clubes começaram a ganhar mais dinheiro, faturando também com TV. Resultado: perdemos ainda mais jogadores para o exterior (mesmo com mais dinheiro nos clubes, ou justamente por causa dessa sanha por esse dinheiro) e, para manter o nível de espetáculo, a competição chegou às raias do absurdo. Se não pode se exigir técnica (os craques foram embora), que se exija raça! Um leão por dia! Um é pouco, mais de um, muitos.
Rafael,
Imagine que todos os clubes brasileiros não cometessem falhas administrativas e conduzissem seu trabalho da forma mais profissional possível. O campeonato terminaria empatado?
A verdade é uma só: “Para que haja um vencedor é preciso um perdedor que, principalmente, erre em sua conduta.
Hoje faríamos parte do lado pobre da cidade.
Quanto a Luxemburgo, hoje é página virada - pelo menos para mim.
Quanto a K9, estou tentando procurar esquecê-lo. O duro é lembrar-me do substituto.
“Construir para poder conquistar! Acreditar sempre!”
Sabe, Rafael, eu sempre fui a favor dos pontos corridos e ainda acho o sistema de disputa mais justo, mas no Brasil não está funcionando muito bem. Todo mundo fala que por aqui o campeonato começa com 10 favoritos ao título, só que isso nunca acontece na prática. Os times vão se entregando a essas “crises” ao longo do ano e desistem de ser campeões e gera aquela pasmaceira que acaba premiando o time mais regular, o que é muito chato. Regularidade e futebol brasileiro não andam juntos, falta transpiração, emoção, putaria etc. Por isso que o Muricy não conseguiu ser campeão da Libertadores com o Leonor FC, pois tem um time apático, que ganhou três campeonatos sem disputar um jogo decisivo; sem se entregar de verdade. Ou seja, o caráter do time foi construído com base em que? Que jogadores são os heróis desse tricampeonato? Nada. Nenhum. Tudo isso só serviu para manutenção desse espírito nojento que envolve a mídia nativa, de blindar um time, não vender a crise do mesmo em suas manchetes e garantir a paz de um time que, repito, na prática, nunca precisou decidir nada.
Ótimo texto Rafael. Eu fico fulo quando os Leonores ficam com esse papo de paulistinha. Pô, tem Santos, Palmeiras, Gambás e elas. Nada, nada são 26 brasileiros, fora Portuguesa, Guarani e Ponte Preta e mais outros vários do interior que nessa história de só valer Libertadores e Brasileiro acabaram com todos esses. Olha o Inter, joga um campeonato falido, goleia todo mundo e na hora do vamos ver, tem um timaço no papel e nega fogo em campo.
A coisa pareceu melhorar um pouco quando lançaram aqueles regionais tipo Rio São Paulo, torneio do Nordeste, Copa Centro Oeste.
Era a chance de times médios como Goiás, Vitória, Coritiba, Paysandu e até grandes em mau momento como o Atlético Mineiro ganharem algo de caráter extra regional e depois se enfrentar na Copa dos Campeões. Mas essa coisa dos pontos corridos com um monte de time matou tudo. Encolheram o estadual que é onde você enfrenta o cara que trabalha do seu lado, que estuda com você. Aí tiraram os regionais e só se joga brasileiro e essa Libertadores - cuja obsessão por ela na minha opinião é estúpida. No meu tempo valia muito mais um estadual que uma Libertadores. Só lembro disso começar a mudar quando o são paulo ganhou a Libertadores, pois eles começaram a esfregar na cara de todo mundo isso, coisa que os santistas nunca fizeram.
Podem escrever, o futebol em termos nacioanis já acabou no Norte, vai acabar no nordeste, no centro oeste e no sul só vai ter grêmio e inter. Por isso, concordo com o David. Força aos estaduais e à Sulamericana. E que retornem os regionais.
Nunca gostei muito desses regionais. Sempre me pareceu um campeonato ainda mais desprezado que os estaduais.
Agora, também acho que os estaduais merecem um pouco mais de espaço e força. Nos anos 90 tivemos os últimos bons momentos do Paulista. Sinto falta daquela época.
Quanto ao texto, irretocável.
Rafael,
Essa sua coluna foi muito boa! Concordo em praticamente tudo (por isso que achei boa..hehe).
Acho que nas ultimas 2 decadas, além da mudança do calendário, que banalizou os classicos, há também a mentalidade de que apenas vencer importa. Jogar bem é o de menos. Quando criança (70-80) os comentaristas pediam cabeças dos times grandes que segurassem o empate no interior paulista - e o interior era bom, e era foda ganhar lá. Já nos 90 havia o deboche dos comentaristas quando o time bom era surpreendido pelo retranqueiro ‘ha-ha, foi jogar aberto, se fodeu!’.
E, claro, o espirito de macaquice dos brasileiros, que só quer saber de Libertadores, também ajuda nisso. Os magnificos estaduais acabaram a partir do momento em que a Libertadores passou a levar 5 times brasileiros. Isso esvaziou as prioridades de ganhar o estadual no começo de temporada. Trocamos classicos por Taquaris e LDUs.
Aproveito para dizer que acho o futebol mais rico e interessante quando seu rival está a 10 Km, nao a 1000 Km.
Abraços a todos
[...] Comments « Brasileirão, essa máquina de moer nervos e times [...]
Caros, muito obrigado pelos elogios. O Tiago fez um texto bem bacana comentando o mesmo assunto e fiz um comentário lá que meio que repercute o falado aqui.
Belo papo!