A arrojada modernidade diferenciada
ago 8th, 2009 by Rafael Evangelista
É pessoal, a pedra que todos cantavam há muito tempo finalmente saiu: os leonores foram ao BNDES pedir dinheiro para o estádio. Não é nada, não é nada, é coisa assim de 300 milhões. Mas eles juram que é emprestado e que um dia eles vão pagar.
Bom, se você quiser ler especificamente só a nossa opinião sobre o caso pode pular as duas primeiras partes. Mas já vamos aproveitar para deixar nosso ponto de vista claro sobre dois assuntos correlatos, a Copa no Brasil e a Timemania
Sim, somos a favor da Copa no Brasil
Para resumir, dá para dizer que os motivos a favor são muito legais e os contra simplesmente não nos convencem. Mas vamos aproveitar para tentar lhe convencer.
Acho que copa no Brasil é um sonho não só para nós como para todo mundo que gosta de futebol. Desde moleque me lembro de trocar idéia com os camaradas imaginando como seria massa ter Copa por aqui, nos lugares que a gente conhece, nos estádios que já fomos. Se Copa é festa quando transmitida pela televisão imagina com todo mundo na rua, com loucos por futebol do mundo inteiro vindo pra cá. E não importa tanto se vai dar pra ver no campo ou não (mentira), o legal é a bagunça, a expectativa, o sarro, a celebração do futebol, não apenas o jogo em si.
Mais, tem gente dizendo que os patrocinadores vão pressionar pela permissão de venda de cerveja nos estádios. Quer notícia melhor?
Claro, somos senhores responsáveis e apontamos razões que não se limitam ao coração e ao fígado. Essa historinha de que “serão trocentos-quasilhões de investimento, vintecosilhões de retorno, uma infra-estrutura que bla bla bla” parece conversa fiada mas procede. Se a coisa for bem feita, investe-se em infra-estrutura para a festa, a grana volta já com impostos arrecadados pelo giro da coisa e ainda sobram algumas coisas bacanas. Legado este não só para a gente usufruir, mas para que outros turistas que venham no futuro tenha uma infra um pouquinho internacionalizada, aquela coisa de você chegar num lugar estranho, com uma língua esquisita e ainda assim conseguir se virar. Quem já foi para países que receberam esse tipo de evento sabe o que é isso.
Agora falemos dos argumentos contrários. Eles são basicamente dois e estão estruturados em duas idéias gêmeas que vivem no senso comum.
O primeiro é que somos ladrões e incompetentes incorrigíveis e que nada vai dar certo. Bom, com essa negação não vai mesmo. Enquanto se diz que “político é tudo ladão” ou “brasileiro é muito desorganizado” - essas grandes verdades de tiozão de bar – não se chega a lugar algum. Ninguém se ocupa de entender o problema direito, já que se atingiu a “grande verdade”, e todo mundo se exime de culpa, porque pode dizer “ah, mas eu sempre fui contra”. É preciso ir além dessa coisa e fazer aquilo que dá trabalho, que é fiscalizar e pressionar. A grande imprensa não vai ajudar muito, como sempre vai ser instrumentalizada por meia dúzia a fim de fazer sua guerra política cotidiana. Mas há novos e bons instrumentos de pressão democrática que podem ajudar a diminuir os desvios ao mínimo (sim, alguma podreira vai rolar, rola em todo lugar). Afinal, se não for assim nunca vamos construir nada, pois toda vez que se gasta há o risco de desvio
O outro argumento é aquele que diz que temos coisas mais importantes a nos preocupar, como saúde, moradia e habitação. Beleza, também acho, mas alguém aí topa fechar o Ministério da Cultura? E o do Esporte? Afinal, subir num palco, correr, pular e jogar vôlei não enche a barriga de ninguém, tem gente morrendo nos hospitais enquanto se fica com essa frescura. É claro que existem coisas mais urgentes, mas esse argumento é por demais simplista. A conta a ser feita aí não é a do tira de lá e põe aqui, mas sobre quanto se gastará para obter qual retorno. O país está razoavelmente estável e as burras estão cheias das tais reservas. Se há um jeito de fazer essa grana girar será algo bom, pois ela deve ir parar na mão de mais gente. Ou então se distribui tudo em bolsa-família e renda mínima, tranquilo, aí eu topo e pode cancelar a Copa (sério).
Somos também a favor da Timemania
Pode parecer que não, mas tem tudo a ver.
Os idiotas da objetividade vêem o futebol como um negócio (não estamos chamando de idiota quem é contra a Timemania, então não se ofenda). Para eles, é uma questão de competição, quem for bom sobrevive e quem for incompetente tem que morrer. De novo, é uma visão por demais simplista.
Quando se diz que futebol é cultura o sentido não pode ser só “olha que jogada bonita, parece uma pintura”. Cultura é muito mais do que arte. O futebol, e por conseqüência os clubes, está no imaginário de um monte de brasileiros. É a conversa de segunda, a zoação no corredor, é o jeito que muitos fazem amigos e se relacionam com a família. É como alguns se definem: palmeirense, atleticano, vascaíno. E o canal disso tudo são os clubes, distintivos, estádios, cores que têm história. Dá para garantir que se não fosse o Palmeiras - e as travessuras leonores com dinheiro alheio - ninguém estaria lendo esse texto. Isso tudo tem um valor que, claro, também pode ser transformado em dinheiro, mas que é bem mais importante do que isso. Os times tradicionais, que têm torcida e história, ajudam a manter alguns talentos por aqui e, principalmente, criam o contexto de rivalidades e campeonatos que fazem com que surjam novos jogadores. Na África a molecada também adora futebol. Mas os times de lá são fraquíssimos e todo mundo torce para os times de fora, em geral do colonizador.
Então, é legítimo que o Estado entre nessa coisa e zele pela história pública e por aquilo que ajuda a nutrir a identidade nacional. Se durante um período histórico teve gente que desviou grana desses clubes e os deixou quebrados, não é por isso que se vai deixar a instituição morrer. Assim como uma fábrica falida é saneada e recebe ajuda para que os funcionários não percam o emprego, é natural que os clubes sejam ajudados para que os torcedores não fiquem à míngua. A partir daí se impõe nomas para evitar novas estripulias e, claro, pune-se os culpados.
Bom, a Timemania não está fazendo isso tudo, beleza. Mas deveria (e deve) fazer, e aí é uma questão de pressionar para que a coisa melhore. O seu princípio não é errado e é esse princípio que não pode ser descartado, como os críticos têm feito.
Agora, os leonores
Então chegamos ao ponto. É legal fazer a Copa e o Estado pode ajudar na infra. É legítimo, também, o Estado ajudar esses patrimônios culturais que são os clubes. Agora, o que não pode, de jeito nenhum, é emprestar dinheiro para empresa em concordata. Pior ainda se esses sujeitos venderam para todo mundo que não precisavam de dinheiro público, compromissaram um monte de gente e agora dizem “Então, acho que vamos precisar sim”.
Os caras já não devem ao Estado, não sonegaram INSS? Fizeram um plano emergencial porque não tinham de onde tirar grana, certo? Agora dizem que tem, chamam tudo de investimento e dizem que vão conseguir pagar?
Pra começar, se conseguissem pagar o que já devem para a viúva, não precisariam estar na Timemania. E, se estão na Timemania, é porque são inadimplentes, e precisaram de um socorro para renegociação da dívida. O princípio é simples: se a firma deve ao governo, não é elegível para financiamento do BNDES. E os leonores devem, e muito.
Certo, o povo do Jardim Leonor até pode se acertar com algum grupo privado que ofereças as garantias necessárias a esse tipo de financiamento (o Palmeiras, por exemplo, tem o acordo com a WTorre para a construção da Arena). Aí, eles que são capitalistas arrojados que se entendam, e se o negócio micar a viúva pode reclamar o empréstimo tomando o patrimônio da empresa.
Mas, ao que tudo indica, o tal grupo privado não vai rolar. Aí vem o pessoal falar que a questão é política, e que a Copa é do Brasil e não dos leonores, que não têm nada a ver com o rolo e só querem ajudar, essas coisas são negociáveis, blablablá.
Beleza, a Copa é do Brasil mesmo. E os leonores até podem ter tentado ajudar. Mas, sabe como é, não vão estar podendo. Então eles que desencanem de enfiar o Morumbi goela abaixo dos organizadores, e que o BNDES ou o órgão que for invista a grana numa praça de esportes pública e bacana, que possa ser utilizada pelo povo em outras atividades culturais e esportivas pós-Copa.
Dar de barato que qualquer estádio que venha a ser construído será um elefante branco é catastrofismo tosco. Até hospitais podem virar um fardo se mal planejados e descolados de iniciativas públicas. Imagine uma praça esportiva moderna, multiuso, que seja vinculada a atividades culturais bacanas depois da Copa, numa política de Estado. Dá pra fazer. Uma coisa é a construção do espaço público. Outra é a inexistência de políticas que garantam seu uso de modo joia.
Se é pra usar dinheiro público, a fundo perdido ou o que for, é melhor que se invista em obras com reais contrapartidas aos cidadãos. Elefante branco ou não, uma praça pública é, bem, pública. Continua sendo a minha, a sua, a nossa praça pública, e sempre dá pra gente tentar melhorar o que é nosso. Pior, muito pior é bater palminha pra privataria leonor.
*Publicado por mim, Rafael, mas escrito também pelo Tiago C. Soares
A discussão sobre o uso de recursos públicos para a adequação de um patrimônio particular, pelo simples fato de que esse patrimônio será utilizado em uma Copa do Mundo, extrapola a esfera esportiva.
Isso deveria ser discutido por toda a sociedade por meio de entidades organizadas. O mais forte argumento para se justificar uma Copa do Mundo no país é deixar para o uso público as melhorias realizadas para o evento. Assim, não se justifica empregar recursos dos contribuintes para que um clube particular utilize o patrimônio e se beneficie dos rendimentos que essa obra venha proporcionar.
Sabemos que se a discussão ficar restrita à imprensa esportiva, pelos muitos interesses envolvidos, haverá um empenho considerável para convencer a população de que não há nada de mais no fato do Estado colocar seus recursos em benefício desse terceiro.
Qualquer obra que venha a ser feita com recursos públicos para a Copa do Mundo, seja ela de estádios ou de infra-estrutura deverá ser utilizada pela população em geral e nunca para o benefício de clubes ou grupos particulares.
Texto espetacular!!!!
Concordo com quase tudo escrito por aqui, especialmente a da copa do mundo no Brasil. Por todos os motivos aqui escritos, sou a favor!!!
Fico extremamente irritado quando chegam com essa história de “ah, mas com tanta miséria etc”. A Copa vai gerar empregos antes e durante a sua realização, e nos deixará um ótimo legado depois. Sempre morei na Grande São Paulo e agora estou instalado na Capital e vejo a falta que nos faz um transporte público decente, por exemplo. Criar uma rede decente numa cidade como essa é primordial, e sei que isso só virá com a Copa.
Ouso ir mais longe: o Brasil sempre teve essa pecha de “País do Futuro”, que na verdade é um eufemismo para “Esse País nunca vai para frente”. Pois acho que a Copa é nossa grande chance de tirar os pés da lama. Mas esse é um assunto bem mais complexo para um comentário.
Em tempo: ainda sou contra a Timemania. Seus argumentos fazem todo o sentido, mas seria necessário limpar os clubes para que uma iniciativa como essa da loteria fosse aceitável. Hoje, ela apenas daria mais crédito para, em pouco tempo, a situação voltar a ser a mesma.
Eu quero ver daqui trinta anos essa cambada de arrogantes que comem mortadela vagabunda e arrotam presunto parma batendo no peito e dizendo que nunca foi investido dinheiro público naquela porcaria de estádio ultrapassado. Ainda por cima se acham no direito de debochar e criticar as nossas parcerias com a iniciativa privada.
Eu não faria tão pouco caso assim do senso comum; afinal, ele se baseia na experiência, algumas delas bastante recentes e vivas na memória - os jogos panamericanos estão aí para justificar o desagrado com que muitos encaram a idéia de uma Copa do Mundo no Brasil.
Eu mesmo já fui mais a favor da Copa por aqui do que sou agora. Seja como for, é fato consumado.
Se o Governo Federal não obrigar o BNDES a emprestar dinheiro à bambilândia, dou-me por satisfeito. Sim, porque sem o dedo do Governo Federal esse empréstimo não sai.
A justificativa para a realização da copa no Brasil baseia-se muito no cenário de terra arrasada.
Assim, “gasta-se tanto e tão mal o dinheiro público, por que não utilizá-lo para um evento tão ao gosto dos brasileiros, mesmo sabendo que será mais um convite à má gestão e ao gasto muito além do razoável?”
Mais ou menos na base da institucionalização da inversão de valores.
Mais ou menos superfaturar o circo para abafar o superfaturamento do pão.
Justamente por concordar que cultura é muito mais do que arte ou conhecimento enciclopédico, considero “culturais” tanto a tendência de privatizar os recursos públicos quanto o pretexto de “interesse social” para estabelecer estruturas pesadas e desnecessárias.
Espero que pelo menos a copa sirva mesmo para modernizar a infra-estrutura das cidades e que não seja apenas uma bolha que vá se desfazer por má gestão, desinteresse e falta de manutenção, depois que os turistas e jornalistas estrangeiros forem embora.
Uma coisa é transportar turistas dos hotéis aos estádios, outra bem diferente é transportar decentemente milhões de pessoas das periferias das cidades aos seus locais de trabalho.
Sou fanático por futebol desde que me conheço por gente, mas a realização da copa no Brasil, nas condições que se apresentam, faz emergir a pior cara do nosso país.
Caríssimos, minha contrariedade à Copa por aqui não se baseia nesses argumentos babacas de “prioridades” e menos ainda esbarra na questão do “investimento público”, já que esporte também é uma forma de inclusão. É lógica a imoralidade a ajuda a empresas em concordata (perfeito o termo, perfeito!), só que minha preocupação é o que irão fazer com nosso futebol até 2014. Os ingressos já estão caros, as arquibancadas cada vez mais perdem espaço nos estádios, a cerveja é proibida - mas dizem que na Copa será liberada, talvez a única coisa boa -, os lugares são numerados e obrigatório é ficar sentado durante o jogo, e o calendário submisso às datas européias já está em discussão.
Há, portanto, um encaminhamento de elitização e modernização do futebol da mesma maneira que ocorreu no futebol inglês, com o agravante de que aqui somos exportadores (como em tudo nesse mundo) e não valorizamos nosso produto nacional por conta disso. O resultado será o fortalecimento dessas já citadas empresas em concordata, mas sempre na vitrine por conta da proteção midiática, e o enfraquecimento daquilo que deveria mover o futebol: alma e paixão - quase um clássico do Wando. Só que, infelizmente, as estrelas e as fontes de renda estarão todas voltadas ao velho mundo, enquanto aqui a gente vai arrotar caviar num campeonato bem manjubinha.
Abraços alvinegros, de quem gosta mesmo é de uma Copa DO Brasil!
Perfeito!
Eu tenho levantado esse lebre no meu blogue há um tempão.
Existe uma tremenda mentira contada pela mídia sobre o que é Copa do Mundo, sua importância, os investimentos necessários etc.
Eles adoram o Maracanã, mas não lembram quem construiu!
Esses idiotas ainda vendem que o bom é pontos corridos, calendário europeu…
Cara,
o texto de VCs é foda d+. Uma pena q vcs nao atualizam
o OV com tanta frequencia. abs
parabéns - belo texto
Rafael e Tiago,
Muito bom. Os leonores são muito chatos e mais chato ainda ficar discutindo o Morumbi. Mas a copa no Brasil é o tema. Pabéns pela postura corajosa de apoio a copa.
O Cláudio tem uma certa razão, assim como o Forza Palestra, defendem um futebol popular, um verdadeiro futebol, só encontrado na rua Javari (justiça seja feita, no Maraca, no Mineirão, no Palestra, no Pacaembú…).
Bom, meus parênteses acima tem uma certa ironia aos que buscam sempre o verdadeiro, a alma e o sentido do futebol no realmente popular jogo na rua Javari, com 700 e tra-la-lá pagantes.
O desafio é imenso e difícil: fazer a copa no Brasil e a copa DO Brasil. Fazer uma copa realmente popular, abraçando a todos os estrangeiros que venham aqui visitar (pois tem o jet set, mas tem também o fanático por futebol e o simplesmente fanático por viajar…). Como disse o Rafael, vale a festa, vale o sentido do evento. Talvez não seja o verdadeiro futebol, mas faz parte da cultura, faz parte mostrar a nossa cultura. E faz parte (e aí vem o desafio) não matar a nossa cultura futebolística em pró da copa. Eu acho perfeitamente possível. Talvez porque não concorde totalmente com as visões do que é o futebol do Cláudio e do Braneschi, talvez se eu comungasse de todos os seus ideais (compartilho alguns) seria também contra a copa no Brasil.
Por fim, acho que temos cultura futebolística. E isso envolve toda uma série de capacidades ligadas ao futebol, do departamento médico à comissão técnica. Na minha visão, não somos exportadores de pé de obra, mas sim de futebol, futebol pronto e acabado. Temos que lutar para não nos transformar em apenas exportadores de jogadores de futebol. E a copa no Brasil pode ajudar e muito nesse sentido.
Abraços,
Pedro.
Gostei de alguns argumentos e acho q muitos deles fazem sentido, mas tem alguns pontos que não são analisados como deveriam:
empresa em concordata? tenho certeza que não é o caso do SPFC, entendo de contabilidade e acompanho os balanços publicados anualmente pelo SPFC, e a saude financeira está em ordem.
O clube realmente disse que não precisava para o dinheiro público para as obras dentro do Morumbi. E não vai utilizar, a partir do momento que um financiamento é feito seja com qualquer instituição, o dinheiro não é público.
O SPFC sonegou o INSS assim como TODOS os clubes o fizeram, tanto que a timemania foi implantada para o governo conseguir renegociar as dívidas e viabilizar o pagamento pelos clubes.
Nenhum clube é inadimplente por estar na timemania, pelo contrário, os que não aderissem a timemania seriam inadimplentes. Portanto é um clube adimplente e em dia com os pagamentos, o tornando apto a receber financiamento de instituições públicas.
Você defende tanto que o dinheiro deveria ser investido numa área 100% pública e não imaginou o que aconteceria? Visto que o Pacaembu não seria apto a receber o investimento, com certeza construiriam uma nova arena em SP. e quem ganharia 30 anos de concessão de um estádio 0km igual o Engenhão no Rio ( que diga-se de passagem custou 5x mais do que deveria ) e que dá prejuízo mensal ao governo?
Garanto que o senhor sem dedo daria pulos de alegria com isso. E acredito mesmo que por esse motivo o Sr. Governador apoia o Morumbi para a copa.
Pessoal,
pensei em responder pontualmente, mas acho que talvez seja mais jogo misturar tudo num comentário só.
Considero bastante razoável a hipótese levantada pelo Claudio, segundo a qual a Copa será a estocada final no futebol bacana, popular, ziriguidum e tal. E é bem possível que seja mesmo. Mas prefiro acreditar que o poder do dinheiro pode e precisar ser controlado. E o melhor jeito é pegando a coisa e bagunçando por dentro.
O modelo inglês, papagaiado como ideal pelos Kfouris da vida, destruiu o futebol inglês, transformou os clubes em carcaças. Mas lá os caras começaram a tocar o terror ali nos 80, 90, com a doutrina liberal arrancando toco. Se há algo de bom nisso, foi o estrago ter acontecido lá antes daqui, de modo que possamos ter alguma perspectiva e nos organizarmos pra tentar a arrumar o que é nosso.
Daí o nosso joinha à Copa no Brasil. De um jeito ou de outro, acreditamos (eu, pelo menos, acredito, e acho que o Rafa tb) que podemos de algum jeito forçar um contraponto à terra arrasada. As coisas pontuais que têm rolado via mídia palestrina já mostram que a mobilização futebolística tem futuro, e acho que dá pra aumentar o fogo ainda mais. Até porque se tem algo que mobiliza as massas aqui, é o belo jogo. Sair do caminho é abrir as porteiras da catástrofe.
O mesmo argumento justifica a contrariedade à ideia segundo a qual somos incompetentes e corruptos sem solução. O sistema é falho? Claro. Agora, sem botar a mão na massa, fiscalizar a pressionar, aí é que não se dá jeito mesmo. É cômodo numa hora como esta, na qual se coloca em jogo os meus, os seus, os nossos esforços e recursos, falar que não vai dar certo e tirar o corpo fora. O que ninguém para pra pensar é que o simples fato de dar de ombros é uma escolha, e é uma decisão pela qual se deve ser responsabilizado. Quer dizer, no fim das contas, dizer “foda-se” também te torna culpado pelo estrago.
Aí entramos nos hipotéticos investimentos para 2014. Se vão investir alguma grana, que invistam em um espaço público sim. Rafael, não sei qual parte de “Uma coisa é a construção do espaço público. Outra é a inexistência de políticas que garantam seu uso de modo joia” você não entendeu, mas é isso: tem que usar o dinheiro num espaço público sim, e seu uso pós Copa deve ser vinculado a uma iniciativa de Estado. Esse papo de “ah, vão construir estádio pra dar pro Corinthians” é terrorismo. Fizeram caca no Pan? Claro que fizeram. Agora, dar de barbada que vai ser a mesma coisa na Copa e não mexer um músculo é esconder a cabeça no buraco. E pedir que aconteça.
Já sobre os leonores pedindo grana pro BNDES, é lógico que a partir do momento em que se adere à Timemania o time começa a pagar alguma coisa. Mas ainda deve, certo? E muito. Posso estar errado, mas duvido que algum clube brasileiro consiga tirar as certidões negativas necessárias a empréstimos como esse. Todos eles. O que pega é a cara de pau dos dirigentes do SPFC, que foram os únicos com cara de pau suficiente para tal, forçando a barra por “revisões” na política de investimentos de um banco público de fomento. E para reformar um estádio que desde sempre vem se mostrando deficitário, e devendo os tubos para a viúva.
E é isso.
Tiago, a partir do momento que a dívida está negociada com o INSS e está sendo paga em dia não se tem problema algum em tirar a certidão negativa. É a mesma coisa que vc parcelar um carro em 60 vezes e só tiver pago 1 parcela, não é um devedor por isso, você só tem ainda 59 parcelas a serem pagas.
E eu sei que pode parecer um pensamento pequeno, mas depois do escandalo que nosso presidente fez depois da venda de 3 jogadores do corinthians, nada me dá mais certeza que eles ganhariam um estádio sim, de graça e ainda depois de 30 anos quando ficasse mais velho era só devolver ao estado pra ele cuidar.
Agora voltando ao assunto da dívida do INSS, no ano em que os clubes assumiram as dividas trabalhistas o SPFC e mais 2 clubes ( não me recordo quais ) foram os únicos a fecharem o ano no azul. Graças a venda de jogadores claro, mas o fato é que tinha na época 70 milhões de reais nos cofres, dinheiro suficiente para pagar a dívida á vista, que aliás não foi feito por ter algum outro tipo de investimento que trouxesse mais retorno do que o pagamento.
Rafael,
Valeu pelo esclarecimento sobre o assunto. De todo modo, ainda que essa a certidão negativa saia — e eu ainda não estou certo de que TODAS as certidões negativas fiquem/estejam em dia –, o simples fato de ter que apelar para a Timemania mostra que o clube não é bom pagador. Certo, já falamos que somos a favor da Timemania, embora ela tenha problemas. Mas não dá pra emprestar a quem não demonstrou capacidade para honrar compromissos com as burras públicas. E isso vale para todos.
Como falamos, o São Paulo ou o clube que for pode muito bem se acertar aí com algum grupo privado que ofereça garantias de que o dinheiro será devolvido, à força ou não. Pedir a grana acenando apenas com hipotéticos “lucros futuros” é bater a carteira de todo mundo, e você sabe disso.
Sobre o investimento em infraestrutura pública, seja em que nível for, acho que a Copa traz sim uma grande chance de melhorias, e isso não deve ser perdido nem desperdiçada. Prefiro acreditar que dá sim pra se fazer algo bacana, desde que todo mundo entre na roda. Não é infalível nem nada, mas quem cuida do público é o público. E se todo mundo tirar o corpo fora, só pode dar errado mesmo.
Não é dinheiro público? O BNDES tira os recursos da onde???
O BNDES é um banco comercial? Que empresta recursos próprios?
Me desculpem, mas se não é dinheiro público, então eu não sei o que é.
Na linha do “se mover e fazer algo”, fui pesquisar no site do BNDES a informação de que o Banco não pode emprestar para quem está devendo. E sim, no link http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/clientes.html é possível ver que “Para pleitear financiamento com recursos do BNDES o cliente deve atender os seguintes requisitos mínimos:
* Estar em dia com obrigações fiscais, tributárias e sociais”
Nessa linha, fica a questão: Ministério Público não vai fazer nada? E se não fizer, não caberia uma ação popular, prevista na CF, em seu artigo 5o, LXXIII?
Certamente tumultuaria o processo, e eu iria adorar ver isso acontecer… Quem sabe a Mídia Palestrina não inicia um movimento contra esse absurdo?
Quem sabe o Fernando Capez não faz algo pelo futebol?
Quem sabe alguém não encaminha uma representação ao MP?
Quem sabe?
E digo mais…
O futebol, que para os desalmados dessa Terra não passa de um mero fator de alienação e de um ‘pão e circo’ para o povo, poderia com um movimento como esse servir como mola propulsora de uma mudança na moralidade administrativa.
Algo como isso acontecendo no futebol seria fantástico. Não existe nenhuma entidade que nós possamos acionar para iniciar algo como isso? Nenhum ONG que possa representar ao MP?
Eu estive no congresso da abraji(Associaçao Brasileira de Jornalismo Investigativo) e na palestra Investigando a Copa de 1014 com o PVC(que eu sei que muita gente nao gosta dele) e com Mauricio Stycer(IG) e uma das coisas que foi abordados lá foi que a Copa vai acontecer e nao adianta nada ficar nessa de “nao podia ter copa no Brasil”, “só vai adiantar para desviar dinheiro publico”, etc e se acha que vai ter, tem que investigar, fiscalizar.
Por sinal, em uma outra mesa, com o André Deak e o Paulo Fehlauer, em que eles falavam de um trabalho deles, fizeram referencia a um texto de vcs sobre jornalismo de codigo aberto.
Luiz não tem algo que o ministério público possa fazer contra a solicitação de empréstimo no BNDES ( levando-se em conta somente as dívidas com o INSS ). Como eu disse no outro post não se trata de uma dívida na visão contábil e sim obrigações futuras.
E Tiago eu não sou a favor mesmo que a copa venha para o Brasil, sou pessimista nesse assunto e acho que todos vão querer colocar a mão no dinheiro público, seja para uma obra do metrô, de estacionamento ou o que seja. Porém dos males o menor, se for para fazer a copa, que seja num estádio existente ( em todos os lugares ). A única coisa que me anima nisso é que vou ser diretamente beneficiado, com um metrô perto do estádio, depois só vai faltar o jogo não acabar mais de meia noite pra dar tempo de voltar pra casa.
Existe uma situação folclórica na política brasileira onde estradas vicinais sem nenhuma importância são asfaltadas até a entrada da fazenda de algum coronel da política local, enquanto outras de maior interesse público são abandonadas pela administração.
Essa adequação do estádio do Morumbi para a Copa parece se assemelhar a esse folclore da política brasileira.
São Paulo é uma cidade que precisa ampliar sua rede de metrô em muitos lugares. Essa estação ao lado desse estádio é a prioridade?
Onde será o estacionamento planejado? Está em área pública ou em terreno particular que precisará ser desapropriado?
O estádio atende as determinações técnicas da FIFA para a adequação à Copa? Pelo que se noticia, não é o caso, mesmo com a reforma proposta.
Quem será o grande beneficiado com essas obras após a Copa do Mundo, uma entidade particular ou toda a população?
Por que tanto empenho para adequar um estádio de concepção arquitetônica ultrapassada, fora das normas da FIFA?
Com os recursos necessários, no caso de financiamento do BNDES, não seria possível construir um estádio novo, dentro das normas atuais para praças esportivas e em local que não cause tanto transtorno com desapropriações?
Quanto aos recursos do BNDES, originários de recursos públicos e que devem ser aplicados para o desenvolvimento do país, terão retorno assegurado de acordo com as rígidas normas que o banco adota para qualquer empréstimo?
Essas rígidas normas para emprestar recursos serão exigidas nesse caso ou em nome da Copa será adotada a política de empréstimo a fundo perdido?
A Copa do Mundo é uma realidade e deixará benefícios ao país antes, durante e após sua realização. Obras públicas ficarão para uso da população e o grande beneficiado será o turismo, com uma divulgação expressiva em todo o mundo. A discussão principal é que sua preparação seja feita com critério e seriedade.
Estádios de futebol também entrarão no balanço positivo para o país e no caso de empregar dinheiro público devem ficar para uso geral e não para benefício de alguma instituição particular.
O clube interessado em ter seu estádio utilizado para a Copa e depois mantê-lo no seu patrimônio deverá fazê-lo por conta própria, com seus recursos e com a responsabilidade assumida. A outra situação, onde o dinheiro do contribuinte é empregado, deve ser para estádios estaduais ou municipais, onde a Cidade ou o Estado possam promover seus eventos.
Prezado Senhor Rafael
Essa instituição PRIVADA, proprietária do estádio Cícero Pompeu de Toledo que mantém as suas contas em dia, mediante a negociação, via Timemania (nos moldes de todos os Clubes nacionais) de seus débitos junto à Previdência Social, dentre outros, essa instituição enaltecida pela competência administrativa e pela capacitação de seus dirigentes, NÃO SERIA CAPAZ DE CONSEGUIR INVESTIMENTO PRIVADO DE QUALQUER UMA DAS MILHARES DE EMPRESAS INTERESSADAS EM UM EVENTO MUNDIAL, TAL QUAL UMA COPA DO MUNDO ???????
A resposta parece-me óbvia. NÃO CONSEGUIU PORQUE NENHUM DINHEIRO PRIVADO SE DISPÔS A FAZÊ-LO, APÓS CANSATIVAS ANÁLISES DE RISCO DO INVESTIMENTO A SER DISPENSADO, LEVANDO-SE EM CONSIDERAÇÃO O CUSTO-BENEFÍCIO. Resumindo: O MURUMBI É INVIÁVEL……
E ai, sim, entram em campo a genética de esgôto (de lixo, mesmo) daqueles que habitam aquele antro. Afinal, por que se preocupar, se construiram o patrimônio atual com os cofres públicos ?? O raciocínio é elementar: a solução é o Estado.
A diferença é a falta de Estados de Exceção, no momento…..
Olá Rafael, o Palestra Imortal está de endereço novo:
http://www.palestraimortal.wordpress.com.
Assim que tiver um tempo atualize os seus links.
Abraço!
Pessoal, finalmente vou entrar na conversa eheheh
Xará, você está se apegando demais ao termo concordata. Nem os clubes são empresas (aleluia) nem Timemania é concordata. O que estamos fazendo é uma analogia, a Timemania é análoga a uma situação de concordata. Mas é claro que tem suas diferenças. Tantas, que a timemania não é exclusiva de um clube, foi feita para todos. Você é que, ao comparar a timemania a uma dívida comum, está misturando as bolas. Não se trata de ter parcelas de uma dívida para pagar, o caso é que você já tinha a dívida, passou um tempão na sem-vergonhice não pagando (e botando dinheiro em outro lugar). Em condições normais seus bens seriam apreendidos. Como o futebol é um patrimônio nacional e muitos estavam em condições iguais de sem-vergonhice, foi feita uma negociação coletiva. Isso não salva a sua pele de ter o crédito bloqueado, até que o seu nome esteja limpo o banco não vai te emprestar mais dinheiro. Esse é o ponto que defendo, se era pra dar estádios como garantia, que esse estádio tivesse sido dado como pagamento das dívidas com o INSS. O que não pode é você fazer dupla hipoteca da mesma casa.
Sobre o governo construir um estádio novo. Eu não gosto da idéia, mas também não acho o fim do mundo se for uma coisa bem feita. E pode ser sim bem feita, não somos naturalmente incapazes. Por mim, a melhor solução seria ter a abertura em um lugar com potencial turístico (não em SP), que pudesse, depois usufruir melhor da infra-estrutura que deve se pagar sozinha com o evento. Sei lá, eu pensaria em algum lugar do Nordeste, como Fortaleza ou Recife.
Agora, vamos falar sério, o que aterroriza aos leonores é a perspectiva do Corinthians usufruir de um estádio sob concessão. Economicamente (e não futebolisticamente) eu acho q até seria a melhor solução, pois de fato eles tem volume para tornar um “Engenhão paulista” viável.
Claudio, meu caro, faltou sim abordarmos a coisa da elitização. Eu também sou contra, mas discordo que seja a Copa um vetor disso. a Copa é passageira, o processo de elitização é mais profundo e começou lá atrás, com a mudança global na lei do passe (sim, pq ela veio junto do pacotão neoliberal). Para a elitização continuar acho que o ponto não é a Copa, são outros fatores, como a diminuição massacrante do número de times (a concentração dos torcedores nos poucos 20 da Série A). É isso que faz com que exista um “topo” em cada clube capaz de pagar ingressos caros e salas VIP. Do meu ponto de vista a resistência passa mais pela diversidade (taí um ponto a elaborar em outro texto). Acho que a Copa, por outro lado, pode é melhorar as relações nos estádios, tanto com a polícia (quero ver se a PM vai dar borrachada em gringo arruaceiro, que existem aos montes), como do ponto de vista da infra básica (banheiro bom não é o de mármore, é o que funciona).
Abraços!
Rafael, entendo essa parte positiva da Copa como ponto a se ressaltar, e se realmente isso acontecer será muito bom para nós que sempre estamos pelos estádios. Também concordo que o processo de elitização começou antes desse papo de Copa, mas o evento dá holofote a bobagens como fair play, torcedor-família e outras superficialidades que servem para transformar o esporte em produto. Apesar da discordância somente neste ponto (ou seja, no otimismo quanto à realização do torneio), tomara que essas perspectivas apontadas por vocês se concretizem, e cabe a nós, até 2014, não deixarmos que transformem nossa paixão em algo criminoso (até porque beber cerveja e fumar cigarro caminham nessa direção) ou subserviente ao calendário europeu, o que nos levaria de volta à posição de colônia fornecedora de matéria-prima para a metrópole.
Abraços, e tá mais do que na hora de um encontro alvinegro/palestrino num butiquim por aí!