Vai um tabu aí?
set 2nd, 2009 by Rafael Evangelista
Antes de entrar no assunto, vou fazer um comentário geral, que vai além da imprensinha esportiva.
O jornalismo, aquela atividade que imaginávamos como envolvendo: garimpar uma informação relevante; fazer a checagem de sua veracidade; buscar a compreensão dessa informação em seu contexto histórico; e fazer sua repercussão, de preferência com interlocutores que tenham visões contraditórias… já era. Nem sei se um dias as coisas funcionaram exatamente assim, só sei que hoje essa visão não podia estar mais longe da realidade.
Não que elas tenham culpa direta nisso – estão fazendo apenas o seu papel -, mas as assessorias tem um peso relevante nisso aí. Como as redações estão pequenas, o povo geralmente ganha mal, e alguns ligam o foda-se grandão, ninguém mais apura nada. Quem traz tudo mastigadinho, prontinho, são as assessorias, que inclusive transformaram o que era para ser um informativo (o famigerado release) em matéria pronta. É só cortar e colar que a notícia tá alí, estruturadinha, se bobear até ouvindo o “outro lado”.
Quer emplacar uma matéria sua em trocentos veículos? Fácil, contrate uma boa assessoria: eles vão fazer uma matéria no formatinho que todo mundo aceita (com lead, aspas, tudo isso, ter “cara” de notícia é essencial) e vão disparar para o mailing deles. Com certeza será publicada na íntegra em jornais pequenos e médios do interior do país. Se você der sorte e o assunto não tiver cara de “polêmico” - pode até ser, basta o editor não achar que seja – entra até nos jornalões. Esses devem disfarçar, alguém vai reescrever algum parágrafo, mas a essência vai ser a mesma (as aspas, por exemplo). O importante aí não são as palavras que estão formando o texto, mas a abordagem que é dada sobre determinado assunto ou mesmo a transformação do assunto em “pauta”.
Lógico que a consequência disso tudo é cruel. A apuração, que deveria estar na redação, hoje é feita em grande parte por “terceiros”. E esses “terceiros” são atores interessados, são gente que tem dinheiro para botar os jornalistas para trabalharem para si, em geral pagando muito mais do que pagam os veículos tradicionais pagam.
E digo que a questão não é culpar as assessorias pois o problema parece ser estrutural. Com a multiplicação dos meios - em especial a internet, mas também os muitos canais de tv – e a especialização, criou-se uma demanda por notícias cuja produção não é viável economicamente. Para falar de futebol, quem tem dinheiro para manter um setorista em período integral, não só nos grandes clubes, mas também na Série B? Alguém precisa pagar a conta ou, no mínimo, o custo de produção de matérias sobre tantos clubes precisa ser reduzido. Porque se os clubes entregarem matérias “meio prontas” o veículo pode contratar menos profissionais, sendo que cada um pode se dedicar a mais clubes.
Quando falamos de futebol a coisa até parece mais ou menos ok. Mas pense na indústria do amianto, ou nos agentes do mercado financeiro. Pensem nesses caras pautando a mídia. Como jornalista especializado em ciência e tecnologia, vivo recebendo releases de médicos e cientistas zé ruela tentando aparecer. E tem gente que publica.
Mas voltemos ao futebol. Vou dar um exemplo citando a assessoria de imprensa cujos releases parecem ser os mais docilmente aceitos no futebol brasileiro, a do Jardim Leonor.
Dadas as condições da tabela, é evidente que o empate foi um ótimo resultado para nós. Não apenas continuamos líderes como mantivemos uma distância saudável dos adversários. A nós, antes do jogo, tudo o que não interessava era uma pressão pela vitória. Isso tinha que estar do outro lado, pois essa era a chance dos leonores mostrarem que tinham realmente engrenado, que podiam brigar pelo título.
Ao mesmo tempo, para os leonores essa pressão podia atrapalhar. Se ela fosse forte, o técnico seria levado a colocar o time para a frente, abrindo espaços para um time perigoso e treinado por alguém que sabe jogar no contra-ataque. E era preciso minimizar o efeito negativo no caso de ocorrer um empate, torná-lo palatável para a torcida.
O que fez, espertamente, a assessoria leonor? Sacou da manga um pretenso “tabu”: desde 2002 o Palmeiras não conseguiria vencê-los em partidas realizadas no estádio que se localiza em bairro cujo nome homenageia a Sr. Adhemar de Barros. O release foi esse aqui.
A mídia comprou. O Jornal do Brasil até repetiu o release completo, enfiando um “da redação” lá no começo. A ESPN chegou a pautar uma pesquisa com os espectadores sobre o “tabu”, perguntando a leonores e palmeirenses a “razão disso” e “o que era preciso para vencer isso”, respectivamente. Podem pesquisar, ninguém deu a matéria antes da assessoria leonor soltar a pauta.
Nisso tudo, tem alguém errado? A rigor, não (talvez o JB, que chupinhou texto de assessoria sem dar crédito, enganando o leitor). O “tabu” é um fato, não é invenção (nem sei porque estou usando aspas nele).
Mas só virou notícia porque alguém assim o tratou. Já a relevância dele é outra história.
Concordo com tudo o que foi dito no texto e exemplos não faltam pra ilustrar o tema.
Mais um ótimo texto do Observatório.
[...] o post “Vai um tabu aí ?” direto do [...]
Grande Texto. Gostaria de ver outro a respeito dessa invenção de “campeão do 1º turno”, que certamente passará a martelar as redações de toda impren$$a hj e amanhã. Parecem que entregaram a taça ao Inter…. O engraçado é que vejo a tabela e nós estamos na frente, a partir do momento que rasgam a tabela não existe motivo para se disputar tal “título”….
Rafael, essa indústria de releases que tomou conta do jornalismo, infelizmente, tende a crescer ainda mais. Na procura por emprego, pude ver que, para cada vaga aberta em redação, pelo menos outras cinco são abertas do outro lado do balcão, digamos assim.
Você citou o São Paulo, mas também podemos perceber o efeito que causou a contratação da Líbero pelo Palmeiras. Você vê muito mais matérias do clube na mídia. E muito mais coisa positiva do que antes. Aliás, como eu recebo os releases, percebo que todo mundo vem fazendo o “gilete press” desses textos na cara dura.
Lógico, essa presenção do Palmeiras na mídia ainda está muuuuuuuuuuuuito longe do ideal, até porque a gente sabe a má vontade desse povo para com o clube. Mas já tivemos um avanço.
Quanto ao comentário do Juarez, esse apoio da mídia ao Inter não me preocupa muito. O Inter está colado e é um adversário difícil, mas o time tá bem e tem condições de manter a dianteira. Sem falar que os colorados ainda precisam enfrentar os bambis e isso nos favorece, porque alguém vai perder ponto. Então deixa a imprensinha fazer festa!!!
Maravilhoso.
Mais um produto do país do sucateamento.
Ninguém que trabalho. Querem tudo na mão.
E nem assim fazem um serviço minimamente competente.
Cara, me atenho primeiro ao tal negócio das assessorias e releases. Há uma imoralidade, a meu ver, quando as redações publicam até as aspas, desse jeito que você falou. Isso, para mim, é inaceitável! Aspas de release é sacanagem, é tipo bater na mãe por causa de mistura…
Já quanto ao tabu, quando a gente ficou 2 anos sem ganhar desse lixo, todo santo dia e todo santo jogo vinha esse papo. O mesmo “tabu” se aplica agora, só que do outro lado. Pergunto: alguém vê isso sendo noticiado?
Abraços!
Televisão - Qual o critério deles para mostrar um jogo e seus lances polêmicos?
Nos últimos jogos deste campeonato brasileiro temos observado um detalhe curioso nas transmissões de jogos, especialmente pela Globo e pelo Sportv.
Não sabemos quem define os lances a serem repetidos para que o telespectador possa tirar suas dúvidas, mas essa escolha tem sido muito estranha e, coincidentemente, segue a mesma linha de preferências históricas das emissoras.
Na partida entre Sport Recife x SP, o gol do atacante Washington passou a impressão de impedimento. As imagens pela câmera lateral não foram mostradas. Por que, se existia o recurso na transmissão, sempre utilizado nesses casos?
No jogo SP x Palmeiras, logo a 20 segundos de jogo ficou a impressão de penalidade máxima cometida contra o atacante Obina. Nenhuma repetição foi mostrada pela TV e ninguém se preocupou em comentar a jogada.
Ontem, no jogo Corinthians x Santos, ficou nítida a preocupação da equipe de transmissão para tentar achar alguma irregularidade no lance anterior ao gol do Santos. Passaram a repetição da falta que originou o lance e somente admitiram que a jogada era legal depois de perceber que não havia como brigar com as imagens.
Mais tarde, na marcação do segundo gol do corinthians, nenhuma repetição da jogada pela câmera lateral para verificação de condição legal ou não. Também existia o recurso técnico da imagem lateral que não foi utilizada, como é tradicional nas transmissões.
É estranho esse comportamento, considerando que quanto maior o número de polêmicas, mais assunto teríamos para a programação esportiva!
Não está em discussão se os lances mencionados foram legais ou não, mas o comportamento estranho das emissoras de TV que passam a clara impressão de que escolhem o que deve ser polêmica e o que não deve. Quem deve ser questionado e quem deve ser preservado!
Claro que tudo pode ter sido uma coincidência, um acaso, mas o que nos deixa intrigado é que o “esquecimento” acontece justamente nos lances que prejudicariam clubes pelos quais as TVs não tem muita simpatia ou beneficiam outros que são conhecidos amigos dessas emissoras.
————-
Obs: Além disso, observamos em várias ocasiões que situações polêmicas idênticas têm várias versões de análise dos comentaristas, dependendo do lado que ocorram em um jogo de futebol.
Quer dizer então que o time mais vitorioso deste país lançou uma nota na quarta-feira anterior ao jogo para minimizar eventual empate do jogo no domingo? eeeeeehhh pelo em ovo.
Marco (8),
você entendeu alguma coisa?
O autor do comentário nº 8 não é o mesmo do comentário nº 7.
Sempre escrevi no OV como Marco e na fase anterior passei a usar “Marco Verdão” para evitar nomes iguais.
Marco - do comentário nº 7
Ô Marco Faga, ovo aqui tem pelo sim.
O “time mais vitorioso deste país” não lançou nota nenhuma. Não precisa lançar nada.
Tem serviçais o bastante que fazem o ‘trabalho’ por ele, antes, durante e depois dos jogos.
Excelente texto… esclarece muita coisa a quem não é jornalista… muito obrigado mais uma vez!
_ E aí, garoto?
_ Leu meu blog, presidente? Pus tudo lá.
_ Li, garoto. Achei que faltou mais ênfase. Você devia mencionar cruzeiros ao invés de Euros. Assim daria uma impressão maior…
_ Presidente, agora são reais… Mas achei que 12 milhões de euros por um zagueiro, nestes tempos, foi um pouco de exagero…
_ Exagero porra nenhuma! Aquele menino segura sozinho lá atrás! O Dias tá muito forte, pesado. Anda fazendo musculação com o Ricky e aí deu naquilo…
_ Alguma nova, presidente?
_ Tem sim. O Morumbi. Empresas estão na fila para reformá-lo. Nós estamos fazendo um cadastro para aceitar apenas aquelas que encherem o copo melhor. Sem muito gelo, pois 24 anos num tonel daquele, derreteria…
_ Presidente, acho melhor conversarmos amanhã sobre isso.
_ Ok, ok…Mas continue discorrendo sobre o Freddy Krugger
_ É Jason, presidente…
Alguém assistiu o Globo Esporte, hoje?
O Sportv vai reprisar a tarde.
Assumiram publicamente a parcialidade.
Quem puder, assista, o caso é sério!
O Kfouri disse por linhas tortas, cheio de enigmas e charadas, que o Dunga conseguiu a demissão de um jornalista da globo que o criticou muito.
Disse que o jornalista é “xará de um ex-técnico da seleção”.
Supõe-se que seja o Mario Jorge Guimarães (xará do Zagallo), que era diretor de programas no sportv, era muito antigo na emissora. O Dunga supostamente pediu a demissão por causa das críticas à campanha na Olimpiada.
O que tem a ver com o Palmeiras isso?
Indiretamente, tem a ver com tudo no futebol.
- Se aconteceu isso mesmo, quando, como, por que o Juca não fala abertamente?
- Por que ninguém mais tocou no assunto?
- Se o técnico da seleção, um cargo transitório, consegue a demissão de um jornalista, o que cartolas mais poderosos não conseguiriam em termos de intimidação sobre os jornalistas?
Caso isto seja verdade, fica explícito o clima de inquisição e de medo no meio jornalístico esportivo. Qualquer opinião que contrarie algum interesse seria de grande risco.
Na hipótese de que o Juca esteja certo, aprofunda-se a discussão sobre a isenção dos veículos da imprensa. Ontem e hoje (8 e 9 de setembro), grandes empresas jornalísticas trabalharam “duro” para defender o tal projeto do panetone para a copa.
Nem sequer tocaram na questão do financiamento. Simplesmente defenderam com unhas e dentes a indicação do morumbi como sede da abertura.
O projeto do panetone é tão bom assim, é tanto o interesse para a população, é tão importante que um estádio privado (em termos) receba a abertura da copa (não importa de onde venha o dinheiro) para que estes órgãos funcionem como assessoria de imprensa do jardim leonor, ou qual é o outro interesse?
Qual jornalista de algum desses órgãos poderia escrever uma vírgula de questionamento a isto sem correr o risco de ir pra rua?
A posição oficial do clube é que o dinheiro do BNDES “não é público”. Ninguém deu um pio sobre tamanha aberração.
E se veículos tão poderosos trabalham tão abertamente para defender este tipo de interesse privado, qual o espaço de manobra e de independência de veículos menores?
Só um trecho da matéria da Folha:
“A Fifa voltou a questionar a capacidade de o Morumbi ser sede da abertura da Copa-2014. Essa posição foi externada sem que sequer fossem analisadas as modificações no projeto de reforma do estádio, feitas recentemente pelo São Paulo. ”
*****
Observem o tom de “indignação”. Por que tamanho empenho na defesa de interesses privados?
Marco (15),
O que houve no Globo Esporte?
Entre na página do Globo Esporte e veja a reportagem que foi ao ar nesta semana.
http://globoesporte.globo.com/Esportes/Programa_Globoesporte/0,,16320,00.html
Observe as entrevistas no final da matéria e a indução de imagem que tentam fazer.
O caso citado com o jogador do Arsenal não aconteceu neste último final de semana, mas apareceu na matéria após o jogo do Palmeiras onde a Globo insiste que não houve penalidade. Tratamento muito diferente em relação aos jogos onde a emissora esconde os erros cometidos contra o Palmeiras.
A matéria com vídeo saiu no dia 08.
Hoje, não consegui localizar.
Verifiquei na coluna “todas as notícias”, em todas as matérias do dia 08.