Guia OV de jornalismo ligeiro II
set 20th, 2009 by Tiago Soares
II – Entrevista ligeira
Dando sequência aos posts sobre a reunião da diretoria com gente da Mídia Palestrina, agora é a hora da entrevista ligeira.
Isso geralmente rola quando, depois de algum encontro com uma fonte primária, voltamos à redação com um material que, interessante, tem uma ou outra arestas.
O que pega é que, às vezes, a conversa com a fonte não é tocada como uma entrevista comum, “pergunta-e-resposta-e-pergunta”. Ou, quem sabe, a coisa até tenha sido feita dessa maneira mas, no fim, não dê muita liga nesse formato.
Pra soltar o negócio rapidão, o que a gente faz? Pega o material, dá uma repassada do que foi falado, levanta alguns pontos de pauta interessantes e monta uma espécie de painel com as aspas do entrevistado.
Esse tipo de matéria já pede um jogo de cintura maior, uma agilidade na angulação e edição de conteúdo. Quando é bem feito, fica muito muito bom. Certamente, melhor do que o que tá aí embaixo:
Diretoria palmeirense traça panorama do futebol do clube
Em coletiva exclusiva para sites independentes voltados à cobertura do Palmeiras (representantes da chamada “Mídia Palestrina”), membros da diretoria e da coordenação de futebol do clube abriram o jogo sobre a reestruturação desenvolvida na equipe profissional e nas categorias de base.
O encontro teve a participação de Marco Antonio Biasotto (coordenador das categorias de base), Toninho Cecílio (gerente de futebol), Savério Orlandi (diretor do departamento de futebol) e Gilberto Cipullo (vice-presidente). Além destes, participaram da conversa Genaro Marino (da diretoria de futebol profissional), e Lourival Silvestre e Ademir Prevelato (da diretoria de futebol amador).
Em pauta, contratações, jovens talentos e a parceria com a Traffic, entre outros assuntos. Confira abaixo mais detalhes.
Categorias de base
Marco Biasotto: “Estamos completamente de acordo com as determinações do Ministério Público no que diz respeito ao cuidado com nossos jogadores da base. Pode parecer essencial, e é, mas infelizmente nem todo mundo pensa assim por aqui. Há pouco tempo, Atlético-MG e Cruzeiro tiveram problemas nesse sentido. E no próprio futebol paulista há equipes com adequações a serem feitas”.
“Foi criado todo um processo, desde o garimpo de jovens talentos, passando pelo acompanhamento nas divisões de base até o estágio final, que é a possível venda do atleta para um clube do exterior. As indicações vêm de parcerias com olheiros e equipes menores espalhadas pelo país. Há, nesse trabalho, uma atenção especial com o sul do país – geralmente, os nascidos lá tem maior chance de conseguir cidadania europeia, o que facilita sua inserção no mercado europeu”
“É importante que os nossos atletas da base tenham boa formação, que estudem, para que rendam melhor em campo e na vida. Para continuar no Palmeiras, os jovens sob cuidado do clube devem render bem na escola. Queremos que, mesmo na eventualidade de uma carreira bem sucedida, eles, ao se aposentar, não sofram o mesmo que alguns dos atletas de minha geração, que passam por problemas psicológicos e financeiros”
“Nossa participação em competições é adequada ao calendário dos atletas. Se as datas de algum campeonato atrapalharem o rendimento escolar dos meninos, não entramos. Por conta disso, deixamos de jogar alguns torneios. Ainda assim, o nosso rendimento nas competições de que participamos tem sido muito bom, geralmente disputamos as primeiras posições”.
Unicef
Biasotto: “O trabalho que desenvolvemos nas categorias de base, após a reformulação recentemente implementada, chamou a atenção da Unicef, abrindo as portas para uma possível parceria como a que fizeram com o Barcelona. Do decálogo de obrigações que nos foi passado pela entidade, temos apenas dois itens a ajustar. Existindo o acerto, o Palmeiras teria grandes vantagens, podendo captar novas verbas para o investimento nas categorias de base e ganhar em exposição e imagem”.
Palmeiras B/Pressão
Toninho Cecílio: “O Palmeiras B foi reformulado, e hoje cobre um vácuo entre a idade limite da Copa São Paulo e o piso do profissional. A ideia é que os jogadores joguem a terceira divisão paulista para adquirirem experiência e corpo, aprendendo a lidar com a pressão. Isso porque, mesmo sendo uma divisão inferior, ali eles enfrentam, em sua maior parte, jogadores mais velhos e rodados. O importante, no caso, é dar bagagem, e não disputar o ascenso. O Souza, por exemplo, passou por essa preparação”.
“Normalmente, contratamos alguns jogadores mais velhos, dois ou três, para jogarem a A-3 do Paulistão com os meninos no Palmeiras B. É uma maneira de dar equilíbrio para o time. Tudo bem que nosso interesse ali não é o título, mas também não queremos cair”.
Integração entre base e profissional
Cecílio: “Os coordenadores e treinadores da base e do profissional estão em contato permanente, sempre trocando informações. No profissional, os responsáveis pela comissão técnica acompanham o desenvolvimento dos garotos, buscando integrá-los ao time principal passo a passo, sem queimar etapas. Do mesmo modo, os treinadores da base estão em contato com os métodos e o estilo de jogo do Muricy, para adaptá-los nos treinamentos com os garotos. Queremos criar uma cultura na qual, na eventualidade de algum atleta jovem ser chamado ao time principal, ele já esteja ciente do que esperamos”.
Figueroa
Cecílio: “Já esperávamos que o Figueroa precisasse de um tempo de adaptação maior. Se pararmos para lembrar, o Valdívia também demorou alguns meses para engrenar no Palmeiras. No Chile (Figueroa jogava no Colo Colo) costuma-se treinar apenas um período, então era natural que demorasse um pouco para que estivesse fisicamente pronto. Não queremos apressar sua preparação ao estilo de jogo brasileiro, nossa ideia é que, quando entre em campo, ele tenha um rendimento satisfatório e não corra o risco de lesões. Além disso, ele acabou pegando uma gripe muito forte, e infelizmente se machucou nos treinos – o que, no fim, estendeu ainda mais o tempo de sua preparação”.
“Seu estilo é diferente daquele do Wendell. Figueroa tem um vigor físico menor, mas tem uma boa técnica no apoio ao ataque. A vinda de um jogador não exclui o outro, na verdade eles se complementam por serem distintos. Queremos que o Muricy tenha mais opções para a montagem do time”.
Transição de diretorias
Gilberto Cipullo: “Tivemos dificuldade para colocar algumas informações em dia na transição entre a gestão atual e a anterior. Algumas frentes foram especialmente trabalhosas. Por isso, a sistematização do que estamos fazendo é uma de nossas preocupações – queremos que, na eventualidade de uma próxima gestão, os futuros responsáveis pelo futebol tenham acesso fácil e rápido aos dados e ações em curso”.
Sem revanchismo
Savério Orlandi: “Em meio à reestruturação da assessoria jurídica do Palmeiras, decidimos continuar com os serviços do escritório contratado pelo Mustafá para nos representar no Rio de Janeiro. Afinal, ali o trabalho, no caso, vinha sendo bem feito e não jogaríamos tudo por terra por revanchismo, nunca tivemos essa intenção”.
Luxemburgo
Cecílio: “O Wanderley Luxemburgo sempre teve boa relação com a diretoria e a coordenação de futebol. Ele era receptivo às nossas opiniões, dialogava de forma aberta, nunca deixou de levar em conta a opinião e as necessidades do clube colocando a si em primeiro lugar. Ele errou em algumas coisas, como todos erramos. Não havia necessidade, por exemplo, de criar alguns atritos com a torcida, provocando possíveis instabilidades no elenco e na comissão técnica. Mas é inegável que também trouxe coisas boas. Afinal, ganhamos um título com ele”.
Mercado
Cecílio: “Construímos um sistema para o garimpo de atletas tanto no campeonato brasileiro quanto nas competições da Europa e da América Latina”.
“No Brasil, acompanhamos as séries A, B e C. O trabalho é escalonado levando em consideração o cronograma de cada campeonato, nos deixando com uma margem bastante interessante para tentarmos a contratação do atleta, antecipando o resto do mercado. Aí, o acordo pode dar certo ou não, como é natural nas negociações. O importante é que, com esse sistema, aumentamos nossas chances de sucesso”.
“No caso dos campeonatos de fora, criamos um banco de dados com os atletas brasileiros inscritos nos campeonatos estrangeiros, com período de contrato, características etc. É a partir dessas informações que entabulamos as negociações. O Edmilson e o Vagner Love foram contratados assim”.
“Na América Latina, fazemos uso de com um sistema parecido com o utilizado para a Europa. Mas ainda não é o ideal. Nesse caso específico, estamos trabalhando na construção de uma rede que possa nos indicar jovens talentos, como fazemos no Brasil para nossas categorias de base. Nossa intenção no mercado latino é descobrir o Valdívia antes do Colo Colo, por exemplo.”
Traffic
Cipullo: “O Palmeiras não é o único clube a ter uma parceria. Diversas outras equipes têm parceiros para a contratação de jogadores. No nosso caso, a parceria com a Traffic é muito interessante, abre boas possibilidades tanto para a construção do elenco quanto para outros negócios. Não podemos esquecer que trata-se de uma empresa consolidada, fortíssima no mercado de marketing esportivo e detentora de um bom know-how para gestão esportiva. Algumas das ferramentas de banco de dados utilizadas para o acompanhamento de nossos jogadores, por exemplo, nos foram cedidas pela Traffic”.
“Não é do interesse do clube depender exclusivamente da Traffic para a construção do elenco. Queremos ter, também, nosso próprios atletas. Mas não temos do que nos queixar, a parceria é transparente, e nunca houve pressão para vender atletas à revelia do interesse do clube. Do mesmo modo, não há qualquer ingerência técnica da Traffic no departamento de futebol”.
Olá Tiago ,
Estivemos nessa apresentação da DIRETORIA DE FUTEBOL e o seu texto relata o que presenciamos uma administração séria , profissional e comprometida com resultados em benefício do PALMEIRAS.
O OV está linkado em nosso site , pedimos e mail para contato pois o citado no blog está devolvendo as mensagens.
Grande abraço em verde e branco !
Cara, curti tanto o relato quando a “aulinha”, mas confesso que tenho uma cisma danada desde tipo de matéria. Por um lado é interessante, porque dá a voz para o(s) entrevistado (s). Por outro, é meio que uma moleza pro repórter, que, naqueles dias em que dá uma preguiiiiiiiiiiiiiça danada, solta o gravador, deixa um macaco bem-treinado fazer a transcrição e já tem a matéria pronta…
Opa,
pessoal, desculpe a demora em comentar por aqui. Estive longe do computador até agora há pouco - o post estava programado no sistema do OV desde o fim da semana passada, e foi liberado pelo Rafa.
Paulo Estevão, logo mais respondo o email.
Cesarotti, pô, valeu pelo crédito. Que é isso, não tenho cancha pra dar aula pra ninguém, imagina.
Então, a idéia deste guia malaco é mostrar que essas coisas são simples, mas nem tanto. Porque tem o trabalho de escolher o que entra ou não (no caso desta série, cada texto tem infos não publicadas nos outros), a transcrição/adaptação do que foi falado (uma palavra mal escolhida pode mudar tudo), a edição e angulação do material e tal…
Quer dizer, se o básico não for feito com cuidado, podem rolar estragos.
E, ó, nem quis entrar no mérito da edição marota, dessas feitas pra torcer a fala do entrevistado na cara dura mesmo.
Sobre a série, tem ainda mais um post. Aí são outras infos, agora tratadas com pegada de articulista, sem o piloto automático e coisa.
E, bom, acho que é isso. Abraço!
Tiago,
Fosse a gazetaesportiva.net um veículo sério e você seria imediatamente contratado para coordenar as “Rapidinhas do Verdão”.
Grande aula a eles você deu nesse post!
Abs.
É uma grande satisfação ver que a turma do Prof. Belluzzo tá ralando no Palmeiras, e para o Palmeiras, com coêrencia e abordagem profissional. Os poucos holofotes na Revolução Palestrina permitem trabalhar com tranquilidade e com o ritmo necessário. Eu gosto desse silêncio… não tenho pressa, porque sei que a direção da restruturação do Palmeiras é a correta (e felizmente começou a tempo). Temos ainda 91 anos pra buscar o Bicampeonato do Século.
Parabéns pelo trabalho no OV.
Com todo respeito,
http://pigpancada.blogspot.com/
Abs
Quem viu o jogo pela Globo ontem?
Alguém notou que tocou o hino do SP no gol do Diego Souza ou eu é que estava louco?